quinta-feira, 30 de abril de 2020

História do Dia: O sonho da Floresta



Há muito, muito tempo, antes da chegada do homem branco ao Novo Continente, Lalita, uma jovem índia, levantou-se uma certa manhã a tremer: tinha tido um pesadelo. Sonhara que majestosas aves brancas atravessavam o oceano, acompanhadas por um vento tão forte que todas as árvores se curvavam à sua passagem.
Tinha até ouvido a floresta chorar.
— O que quer isto dizer? – perguntou aos pais.
Mas nem o pai nem a mãe souberam explicar-lhe.
— Foi apenas um sonho, Lalita – disse o pai. — Não te inquietes, minha filha.
Mas, um dia, pouco tempo depois deste curioso sonho, numa altura em que estava a contemplar o horizonte, Lalita pensou ter visto, ao longe, enormes aves brancas que voavam ao seu encontro por cima do mar. Não eram – infelizmente – aves majestosas, mas antes as velas brancas de imponentes navios, a bordo dos quais se encontravam estranhos indivíduos. Lalita estremeceu, o sonho tornava-se realidade.
Os homens vindos do Oceano chegaram a terra. Possuíam machados e nenhum respeito tinham pela floresta. Nem sequer se preocuparam com os índios que, ao contrário deles, amavam as árvores e compreendiam a sua linguagem. Começaram então os homens brancos a abater, uma a uma, as árvores da floresta. Acarretavam as árvores mortas até aos navios, deixando para trás a terra desolada e nua. Uma vez desaparecida a floresta, nada mais restava a Lalita senão chorar. Já não havia vivalma na floresta, nem ursos nem aves. E os próprios índios se puseram em fuga, os velhos apoiados nos bastões e os bebés nos braços das mães.
Lalita não queria fugir. O coração dizia-lhe que ficasse junto das árvores bem-amadas e não as abandonasse.
— Irei mais tarde – prometeu à mãe. Refugiou-se então numa gruta. Cheia de terror e de desespero, viu os homens brancos destruírem a floresta. Ouviu também choros de crianças. Em verdade, eram os gritos de dor das árvores abatidas pelos machados. Lalita sentiu que o seu coração se partia. Viu e escutou tudo, até ao momento em que os homens brancos levaram a última árvore, desaparecendo por fim.
Ao cair da noite, Lalita deixou o refúgio. No céu, as estrelas brilhavam como diamantes. Os reflexos cor de safira, rubi e esmeralda da aurora boreal acariciavam os cumes das montanhas. Mas Lalita nada via desse espectáculo. Chorava a floresta cujas árvores conhecera uma por uma. Chorava a terra devastada que outrora acolhera o seu povo. E as lágrimas impediam-na de ver o crescente prateado da lua a subir no céu e a resplandecer num silêncio de morte.
Lalita estava estendida, imóvel. Apenas os cabelos ondulavam sobre a terra deserta. Durante sete dias e sete noites assim permaneceu. Durante sete dias e sete noites Lalita chorou. E chorou tanto que um riacho nasceu das suas lágrimas.
E do riacho brotou uma cascata.
E as lágrimas de Lalita espalharam-se pela terra seca formando novos rios.
Na manhã do oitavo dia, algo de inesperado ocorreu. Um rebento surgiu na beira do rio de lágrimas. E o rebento transformou–se numa campainha tão branca e suave como a lã de um cordeiro. Pouco depois surgiu uma outra campainha-branca, depois uma outra, e a terra devastada acabou por se cobrir completamente de pétalas brancas como a neve.
Mas Lalita de nada se deu conta. Continuava a chorar. As suas lágrimas alimentavam o rio que se espalhava sem cessar. As lágrimas impediam-na de ver os jovens rebentos de carvalho e os minúsculos picos dos pinheiros que nasciam. Não via as árvores que cresciam a seus pés nem as flores que surgiam entre os seus dedos.
Um dia, ao nascer do sol, ouviu-se um canto tão puro e tocante como a música de uma flauta.
— Um pássaro! – murmurou Lalita.
Parou de chorar e abriu os olhos. Nos ramos de um ácer um pisco cantava.
Lalita riu, saltou de alegria e estendeu os braços. A ave, tão feliz quanto ela, esvoaçou e veio pousar-lhe na mão. A vida regressava à floresta. As suas lágrimas tinham sido sinceras, e a elas a terra tinha ido buscar a água e o amor necessários para que a natureza de novo brotasse. O amor permitira o regresso dos animais, dos pássaros e da sua família.
A partir desse dia os índios afirmam que, se um amor é fiel, tudo o que foi destruído renasce das cinzas, e que o amor leva sempre a melhor sobre o ódio.
Kenneth Steven
Le songe de la forêt
Paris, Ed. Gründ, 2002
tradução e adaptaçãohttps://interculturalidades.wordpress.com/2008/04/24/o-sonho-da-floresta/

Dia Internacional do Jazz: sugestão


Dia Internacional do Jazz




Foi em 2012 que se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional do Jazz. A comemoração tem como objetivo lembrar a importância deste género musical e o seu contributo na promoção de diferentes culturas e povos ao longo da história. O jazz está associado à luta pela liberdade e à abolição da escravatura.

O jazz é um estilo musical que apela à criatividade e à improvisação.

O jazz teve origem nos Estados Unidos da América, através da comunidade afro-americana no século XIX, tendo-se popularizado nas primeiras décadas do século XX. New Orleans é reconhecida como a cidade onde nasceu o jazz. Acredita-se que a palavra jazz advém da gíria norte-americana.

Miles Davis, Chet Baker, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nina Simone, John Coltrane, Louis Armstrong, Edward Ellington e Dizzy Gillespie são alguns dos grandes nomes do jazz.

https://www.e-cultura.pt/efemeride/19

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dançar em tempo de confinamento

Dia Mundial da Dança

O Dia Mundial da Dança foi instituído pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) em 1982. Celebra-se na data de nascimento do bailarino Jean-Georges Noverre (1727-1810), considerado um dos pioneiros da dança moderna.

História do Dia: A arte de ser feliz




Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles
Escolha o Seu Sonho – Crónicas, 2016
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2017/02/13/a-arte-de-ser-feliz/

terça-feira, 28 de abril de 2020

História do Dia - O Sapo Desaparecido

Hoje publicamos uma história escrita por uma das nossas alunas do 5.º ano.


O Sapo Desaparecido

        Num castelo no ar, situado no Reino do Ar, todos os animais voavam.
       Havia um deles que estava sempre a perguntar-se o que teriam debaixo deles. Era o sapo voador, o Jimmy. Todos os dias ele pedia:
- Mãe, pai, posso ver o que tem lá em baixo? Nunca ninguém viu!
        Mas levava sempre com a mesma resposta:
- Não, Jimmy Watterson, já te dissemos que lá em baixo é um mundo muito diferente, sempre alegre sem nenhum problema e anda muita gente na rua! Se te descobrissem, invadiriam logo o nosso reino!
      O pobre Jimmy não podia desrespeitar os pais. Mas, uma noite, Jimmy decidiu sair sem autorização e muito assustado sussurrava:
- Espero bem que ninguém me encontre!
E lá foi o pequeno sapo voador.
Chegou ao amanhecer, e muito admirado disse:
- Que estranho! A mãe e o pai disseram-me que cá em baixo era tudo alegre e estava muita gente na rua a passear e feliz, mas não vejo ninguém!
Ele estava a voar pelas ruas e só via cartazes a dizer: “COVID-19 (Coronavírus)! Proteja-se da grande pandemia, evite sair à rua, mas se sair use máscara e luvas! Acredite que vai ficar tudo bem, cuide de si, pois fazendo isso está a proteger os outros!”
        O pobre sapo já não sabia o que fazer e perguntava-se mais uma vez:
- O que será isto do tal COVID-19?
Ele começou a investigar e descobriu que era uma pandemia. Um vírus estava a infetar todo o Mundo. Jimmy voltou logo para o seu reino.
     Mal chegou, estava toda a gente preocupada com ele! A mãe e o pai muito preocupados logo lhe perguntaram:
- Jimmy, onde estivestes até agora? Estávamos muito preocupados!
- Mãe, pai, eu fui ver o que tinha em baixo de nós. Desculpem! Eu não vou mais voltar. Eu descobri que existe lá uma grande pandemia de COVID-19 e ninguém pode sair à rua sem ser necessário, mas se saírem têm de levar máscara e luvas e, mal entrem em casa, devem lavar as mãos - dizia o pequeno sapo voador.
Os pais aceitaram o pedido de desculpas, mas daí em diante nunca mais ninguém foi lá a baixo.

Marlene J. (aluna do 5.º ano)

segunda-feira, 27 de abril de 2020

História do Dia: Mais bonito que as sardas



As rugas deviam simplesmente indicar o lugar onde os sorrisos estiveram.
Mark Twain

Aconteceu um ano no Zoo. Eu e a minha filha estávamos ao lado de uma avó e de uma menina com a cara toda pintalgada de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças faziam fila, esperando que uma artista local lhes pintasse as caras, decorando-as com patinhas de tigre.
— Tu tens tantas sardas que nem há sítio para pintar — berrou um rapaz da fila. Envergonhada, a pequenita ao meu lado baixou a cabeça.
A avó ajoelhou-se ao lado dela. — Adoro as tuas sardas — disse ela.
— Mas eu não! — respondeu a menina.
— Bem, quando eu era pequena só queria ter sardas — disse ela, passando o dedo pelas bochechas da criança. — As sardas são lindas!
A menina olhou para cima. — A sério?
— Claro — disse a avó. — Diz-me lá uma só coisa que seja mais linda que as sardas.
A pequenita examinou atentamente a cara sorridente da velha senhora. — As rugas — disse meigamente.
Aquele momento ensinou-me algo a partir de então. Se olharmos os outros com os olhos do amor, não veremos defeitos. Apenas beleza.
Sue Monk Kidd

domingo, 26 de abril de 2020

História do Dia: A bola e os seus amigos




Veio uma bola pelo ar
que se pôs a saltitar
por cima deste papel.
Quem foi que lhe deu licença?

Houve um menino que a viu
e que correu a apanhá-la
ela então parou – fugir não fugiu –
e ficou à espera que o menino
com ela brincasse.
— Deixas que eu salte ao eixo?
— Pois decerto que deixo.
— E posso deitar-me sobre ti?
Não me empurras? Não me foges?

— Podes sim.
Sou bola boa. Redonda.
Não tenhas medo de mim.

Nisto, chegou-se uma menina
que perguntou:
— Esta bola é tua?
— Não sei! — respondeu o menino.
— Pergunta-lhe a ela.

Falou então a bola:
— Sou vossa, de vocês dois, mas não me partam ao meio.
Era um perigo pois deixava de ser bola.
Brinquem, brinquem comigo. Não sirvo para outra coisa.
Mão de menino que em mim poisa
é mão de amigo.
Quantas mais mãos, mais amigos;
e eu, então, embora não pareça,
fico tão cheia de ar, de alegria,
que perco a cabeça.

Vieram mais meninos,
e a bola voou do chão,
andou de mão em mão
– é minha, é tua agora! –
saltou, correu, voltejou
e voou desta página para fora.

                           António Torrado

sábado, 25 de abril de 2020

25 de abril Sempre!


 Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner Andersen (1974) 










Em Portugal, na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, um grupo de militares iniciou o derrube de um regime repressivo de 48 anos, há muito esperado. O povo desceu às ruas, clamando por paz, pão e liberdade. Emergindo dos tempos ditados por Salazar e Caetano, os povos de Portugal e das então colónias portuguesas emanciparam-se calando uma guerra sangrenta, uma emigração injusta, uma economia pobre e uma sociedade censurada, tão distantes da CEE/UE e da ONU.
Nasceu a Democracia, fez-se a Descolonização e alimentou-se o Desenvolvimento. Os tais 3 D do Movimento das Forças Armadas, prometidos e vividos desde então.
Interrompida a noite com o cantar de “Grândola, Vila Morena” e de “Somos livres”, o povo português, unido, tem celebrado, desde essa data, a Revolução dos Cravos.
Hoje, em Portugal e no Mundo, canta-se novamente a “Grândola, Vila Morena”. Em casa ou à janela, ao vivo ou online, com um livro na mão, em tempos singulares de pandemia. Um 25 de Abril diferente, mas sempre!

História do Dia: História de uma flor


Uma história que pode ser lida em:
http://cataflash.catalivros.org/m005/LM_0004_FOL_transicao_historia_de_uma_flor.html!

Para assinalar a comemoração do 25 de abril  de 1974, depois da história sugerimos fazer o origami de um cravo.



quinta-feira, 23 de abril de 2020

Desafio: Dia do Livro e do Direito de Autor

Hoje lançamos o desafio de responderes a um Kahoot! sobre o Dia do Livro e do Direito de Autor. Clica na imagem! Para começar o jogo só tens que colocar o teu nickname. Sugerimos que seja o nome de uma das tuas personagens da história que mais gostas.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

Num ano conturbado em que, na cadeia do livro, todos somos precisos - escritor e ilustrador, editor, tradutor, revisor, designer, gráfica, distribuidora, livraria, mediador, biblioteca e, sobretudo neste momento, o LEITOR -, a ilustradora e designer Mariana Rio (Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração em 2019) concebeu a imagem do cartaz.

O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Neste dia, comemora-se também o Direito de Autor.

Esta data foi escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de S. Jorge, e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras do heróico cavaleiro. Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como Shakespeare, Cervantes e Garcilaso de La Vega, falecidos em Abril.

Se este ano vai ser difícil oferecer uma rosa, fácil será oferecer um livro. Vá à livraria da sua zona ou encomende online, e envie um livro para os que lhe são mais queridos.

Um livro no coração. Todos somos Livros.

Dia da Terra: Sugestão do Dia

Dá a Mão à Floresta é um projeto de Responsabilidade Social e Ambiental da The Navigator Company. Promover a necessidade de proteger a floresta, valorizar os produtos de origem florestal, onde está inserido o papel, bem como preservar o ambiente são os principais valores que este projeto procura transmitir desde a sua criação. (Clica na imagem e explora a página.)

Dia da Terra: Um minuto de silêncio de gratidão à terra

Dia da Terra: Para os mais pequenos

terça-feira, 21 de abril de 2020

Estudo em cada: Dica do Dia


História do Dia: A cegueira do príncipe

Veio esta história de longe, da Índia, que é terra fértil em histórias de encantar.
Aí se conta de um príncipe, filho de um poderoso marajá (que era um rei da Índia, de antigamente), que era cego.
Inexplicável doença roubara-lhe a luz dos olhos e nenhum sábio ou médico dos mais eminentes conseguia atinar com a cura do seu mal.
O rei (o marajá) só vivia para o seu desgosto e toda a corte mergulhara também em grande tristeza.
Mas, um dia, apresentou-se no palácio um peregrino que disse:
— Sei do remédio que cura o príncipe.
O marajá chamou-o logo à sua presença:
— Diz-me o que precisas para livrar o meu filho da cegueira, que tudo se fará como tu ordenares.
— Preciso apenas de uma taça de cristal — respondeu o peregrino — e que Vossa Majestade me acompanhe numa viagem, através do reino.
Rei e peregrino desceram às ruas e aos campos miseráveis do reino. Por onde passavam, onde houvesse lágrimas vertidas pelo povo, lágrimas de sofrimentos, de misérias, de injustiças sofridas e caladas, o peregrino colhia-as na sua taça de cristal.
Quando tiveram a taça quase cheia de lágrimas — o que não foi difícil, porque o povo daquele reino era pobre e vivia abandonado, no meio da sua pobreza, — quando deram por finda a viagem e regressaram ao palácio, o peregrino banhou os olhos do príncipe com o conteúdo da taça.
Que ninguém se admire com o que sucedeu…
Imaginem que logo, naquele instante, o príncipe voltou a ver.
A história não conta se o rei, depois desta viagem, passou a cuidar melhor dos assuntos do reino nem se o príncipe, uma vez rei, foi bom e justo para o seu povo. A história não conta, mas nós acreditamos que sim, que foi tal e qual como nós desejamos que tudo passou a acontecer.

                                                                                                                                        António Torrado

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Medi@ção - Concurso 2020 (até 30 de maio)


O prazo final de entrega dos trabalhos ao concurso Media@ção foi alargado até ao dia 30 de maio
Podem candidatar-se alunos de ensino básico e secundário de escolas públicas, privadas, profissionais e, ainda, escolas portuguesas ou da rede de ensino de português no estrangeiro.
Pretende-se que os trabalhos relacionem o uso dos media e o atual problema da desinformação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável n.º 5 (Igualdade de Género), n.º 13 (Ação Climática) ou n.º 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), a saber, que relacionem os media e a desinformação com problemas de igualdade/ violência de género, questões ambientais ou formas várias do designado discurso de ódio.
Lâ atentamente o Regulamento e consulta a informação que se encontra no "padlet" que a tua Biblioteca criou para apoiar a tua participação no concurso.



História do Dia: A galinha vermelha


Tendo uma galinha vermelha encontrado alguns grãos de trigo, disse aos seus vizinhos de capoeira:
— Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém quer ajudar-me a plantá-lo?
A vaca disse que não. O pato, o porco e o ganso também se recusaram a fazê-lo.
— Então, eu mesma os plantarei — disse a galinha.
E assim fez. O trigo cresceu alto e doirado. Quando estava já amadurecido, a galinha perguntou:
— Quem quer ajudar-me a colhê-lo?
— Eu não — negou-se o pato.
— Isso não faz parte do meu trabalho — disse o porco.
— Tenho demasiados anos de campo! — exclamou a vaca.
— Não posso arriscar-me a perder a ajuda do meu dono — disse o ganso.
— Então, eu mesma o colherei — disse a galinha.
Quando chegou a hora de preparar o pão, a galinha perguntou:
— Quem quer ajudar-me a cozê-lo?
— Só se me pagares! — exclamou a vaca.
— Eu não posso pôr em risco o meu estatuto de doente — disse o pato.
— Eu fugi da escola e nunca aprendi a fazer pão — explicou o porco.
— Se for só eu a ajudar, considero-me vítima de discriminação — resmungou o ganso.
— Então, eu mesma o faço — disse a galinha.
Assou cinco pães e colocou-os numa cestinha onde todos os podiam ver. De repente, todos pareciam querer pão.
Mas a galinha anunciou:
— Comerei eu os pães sozinha.
Então, a vaca gritou:
— Os teus lucros são excessivos!
O pato protestou:
— Não passas de uma sanguessuga!
— Exijo direitos iguais! — bradou o ganso.
Quanto ao porco, apenas grunhiu.
Todos os animais pintaram faixas e cartazes e marcharam em protesto contra a galinha. Chegou, então, o feitor da quinta, que disse:
— Galinha, não podes ser assim egoísta!
— Mas eu ganhei este pão com o meu próprio suor —protestou a galinha.
— É esse, justamente, o princípio da livre iniciativa — continuou o feitor. — Qualquer um ganha o que quiser. Contudo, segundo as regras da nossa quinta, os animais mais produtivos têm obrigação de partilhar o que produzem com os animais que nada querem fazer.
E todos viveram felizes para sempre, incluindo a pequena galinha vermelha, que sorria e cacarejava:
— Eu estou grata, eu estou grata…
Contudo, a verdade é que a galinha nunca mais fez nada. Nem sequer um pão.

Julio Cesar Zanluca
(Adaptação)

Estudo em casa: Dica do Dia


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Apoio ao Ensino à Distância


Ensino_à_Distância de Recursos Biblioteca

Passatempo II - #EstouaLer - Instagram (até 23 de abril)

Como participar

1. Faz uma fotografia da capa do livro que estás a ler.

2. Publica a foto na tua galeria e escreve um comentário com um máximo de 50 palavras sobre o livro. Por que razão o escolheste? Estás a gostar da sua leitura? Porquê? Recomendá-lo-ias a alguém?...

3. Identifica o teu post com os hashtags #EstouaLer e #PNL2027.

4. O perfil da tua conta deve ser público. Os participantes menores que desejem participar neste passatempo e não tenham um perfil público no Instagram podem enviar para pnl@pnl2027.gov.pt (ass: #EstouaLer) a identificação do seu perfil com a foto e o comentário escrito, a fim destes serem publicados com os respetivos hashtags no mural do PNL2027.

5. Podes candidatar-te com mais do que um post.

6. A(s) fotografia(s) da capa do(s) livro(s) têm de ser da tua autoria, inéditas, não pertencendo nem violando direitos de terceiros, designadamente de imagem e de propriedade intelectual.

7. Durante as (Anti) quarentena de Leituras, que se prolongará até ao final das férias escolares da Páscoa, o PNL2027 irá partilhar na História do Instagram os posts publicados.

8. O post com mais visualizações vencerá o Passatempo II #EstouaLer

9. O(a) autor(a) do post vencedor, a divulgar em 23 de abril - DIA MUNDIAL DO LIVRO, deverá enviar para pnl@pnl2027.gov.pt os seus contactos para a remessa do prémio.

10. O prémio a atribuir é constituído por 3 livros e acessórios tecnológicos (colunas portáteis, power banks, headphones, …).

11. Ficam automaticamente desclassificados os participantes que partilhem posts que tenham carácter ofensivo, discriminatório ou inadequado. 

Participa!

História do Dia: A cadeira musical


Era uma vez uma cadeira que sabia música. Uma pessoa sentava-se nela e a cadeira começava a tocar.
— É uma cadeira-caixinha de música. Tem molas especiais que fazem “clique”, quando uma pessoa se senta na cadeira e, então, a caixinha de música começa a tocar — explicava quem sabia destes mecanismos de cadeiras musicais.
Talvez fosse, realmente, assim. O certo é que, um dia, a cadeira se avariou. Deixou de tocar música. Passou a ser uma cadeira banal, igual a milhões de outras que não tocam.
— Deve estar com as molas gastas — disse a velha e gorda senhora, dona da cadeira. — Vou mandar arranjá-la.
Mas na oficina das cadeiras desenganaram-na:
— Já não há quem arranje dessas cadeiras.
Voltou a cadeira para casa da senhora que, às vezes, com saudades de outros tempos, nela se sentava, evocando a musiquinha que a cadeira, dantes, tocava.
A velha e gorda senhora lembrava-se de quando era nova, leve e gentil e ia, às escondidas da avó, sentar-se na cadeira com música.
— Tlim, tlim, tlim e mais tlim — tocava a cadeira, à volta da menina.
Que saudades! A senhora largou um imenso suspiro e foi atender à porta, porque a campainha repicara. Era uma amiga com o sobrinho, um miúdo tímido, escondido atrás da sombra da tia.
— Entrem para a sala — convidou a velha senhora.
Logo aconteceu que o menino se foi sentar na cadeira avariada. E não é que ela, sem mais quê nem porquê, ao leve peso do garoto, começou a tocar?
O miúdo saltou, assustado, e a cadeira calou-se. Então, a velha senhora explicou o mecanismo da cadeira e tudo voltou ao certo.
Naquela tarde, a cadeira tocou que foi um regalo ouvir.
— Eu já devia estar muito pesada para a sensibilidade da cadeira — concluiu a senhora.
E logo ali ficou combinado que o menino, sempre que quisesse, podia vir visitar a senhora. E a cadeira. As duas teriam muito prazer em recebê-lo.

António Torrado
https://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/2020/01/09/a-cadeira-musical/#more-2807

Estudo em casa: Dica do Dia


quinta-feira, 16 de abril de 2020

Homenagem ao escritor Luis Sepúlveda








Do campanário de São Miguel via-se toda a cidade. A chuva envolvia a torre da televisão e, no porto, as gruas pareciam animais em repouso.
- Olha, ali vê-se o bazar do Harry. Estão ali os nossos amigos – miou Zorbas.
- Tenho medo! Mamã! - grasnou Ditosa.
Zorbas saltou para o varandim que protegia o campanário. Lá em baixo os automóveis moviam-se como insetos de olhos brilhantes. O humano colocou a gaivota nas mãos.
- Não! Tenho medo! Zorbas! Zorbas! - grasnou ela dando bicadas nas mãos do humano.
- Espera! Deixa-a no varandim - miou Zorbas.
- Não estava a pensar atirá-la - disse o humano.
- Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas - miou Zorbas.
A gaivota estendeu as asas. Os projetores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.
- A chuva, a água. Gosto! - grasnou.
- Vais voar - miou Zorbas.
- Gosto de ti. És um gato muito bom - grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.
- Vais voar. Todo o céu será teu - miou Zorbas.
- Nunca te esquecerei. Nem aos outros gatos - grasnou já com metade das patas de fora do varandim, porque, como diziam os versos de Atxaga, o seu pequeno coração era o dos equilibristas.
- Voa! - miou Zorbas estendendo uma pata e tocando-lhe ao de leve.
Ditosa desapareceu da sua vista, e o humano e o gato temeram o pior. Caíra como uma pedra. Com a respiração em suspenso assomaram as cabeças por cima do varandim,e viram-na então, batendo as asas, sobrevoando o parque de estacionamento, e depois seguiram-lhe o voo até às alturas, até mais além do cata-vento de ouro que coroava a singular beleza de São Miguel.
Ditosa voava solitária na noite de Hamburgo. Afastava-se batendo as asas energicamente até se elevar sobre as gruas do porto, sobre os mastros dos barcos, e depois regressava planando, rodando uma e outra vez em torno do campanário da igreja.
- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos - disse suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.
- Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? - perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Estudo em casa: dica do Dia


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Estudo em casa: Dica do Dia


História do Dia:Os dois pássaros


Dois pássaros pousavam muito felizes sobre a mesma planta. Um deles estava mais acima e o outro mais abaixo.
Passado algum tempo, o pássaro que estava mais acima disse para o outro:
— Que lindas são estas folhas verdes!
O pássaro que estava mais abaixo respondeu, irritado:
— Estás cego? Não vês que são brancas?
O de cima continuou:
— Tu é que estás cego. São verdes!
Continuou o outro:
— Aposto contigo que são brancas. Tu não percebes nada de folhas de árvores!
O pássaro de cima, irritado com esta discussão, atirou-se para cima do adversário, para lhe dar uma lição. O outro não se moveu.
Quando estavam próximos um do outro, tiveram a franqueza de olhar os dois para cima, na mesma direção, antes de começar o duelo.
O pássaro que tinha vindo de cima ficou surpreendido:
— Que estranho! Afinal são brancas!
E convidou o seu amigo:
— Vem cá acima, onde eu estava antes.
Voaram para o ramo do alto e, desta vez, disseram os dois em coro:
— Que estranho! Afinal são verdes!

Cada pessoa tem o seu ponto de vista, a sua opinião, a sua verdade. Cada qual vê as coisas segundo a sua perspetiva, que por vezes julga ser a única. É necessário que as pessoas se juntem, ponham em comum o que pensam e sentem, escutando-se umas às outras.
Pedrosa Ferreira
Educar, Contando
Porto, Edições Salesianas, 2012
http://contadoresdestorias.wordpress.com/


terça-feira, 14 de abril de 2020

Estudo em casa: Dica do Dia


História do Dia: Ele há cada nome…


Há nomes que nem inventados.
Mas são verdadeiros. Eu garanto, porque os colecciono e cato, um a um, pelas listas telefónicas do país.
A família Barriga, por exemplo, tão velha como Portugal. Já no tempo do nosso primeiro rei, o bravo D. Afonso Henriques, vivia, na província da Beira, um Martim de Barriga.
Que ninguém se admire. Se há tantos Costas, porque é que não há-de haver alguns Barrigas?
A família cresceu, espalhou-se e chegou aos nossos dias. Conheci, há tempos, uma senhora descendente do remoto beirão Martim de Barriga. Chama-se Maria das Dores; mais precisamente, Maria das Dores de Barriga, o que talvez lhe cause alguma indisposição.
E o caso do Dr. Pedro Branco, que se casou com uma senhora de apelido Feijão e tiveram um filho Feijão Branco?
Mais ou menos semelhante, e também verdadeiro, foi o caso, ou casamento, que uniu D. Maria José Coelho com o Engenheiro Manuel da Silva Guisado. O filho do casal chama-se Abel Coelho Guisado e não se importa.
 Nem tem nada com que importar-se, porque, verdade verdadinha, há nomes muito mais esquisitos.
Contou-me a minha avó que um casal já com muitos filhos foi brindado com mais uma criança, um perfeito rapazinho que havia de se chamar…
– André – disse o pai.
– João – disse a mãe.
– João Pedro – disse o avô.
– João Maria – disse o outro avô.
– João Carlos – disse uma avó.
– João Manuel – disse a outra avóNão se entenderam.
Quando, na cerimónia do baptizado, foi preciso assentar o nome do bebé no livro dos registos, ainda a família não tinha chegado a uma decisão. Até que a mãe, para safar a encrenca, ditou ao sacristão, que estava de caneta suspensa sobre o livro dos registos:
– Olhe, senhor sacristão, o nome do meu filho fica João, até ver. E Martins…
E o obediente sacristão escreveu assim o nome do rapaz:
João Até Ver e Martins
Mas ele, para o resto da vida, ficou só conhecido pelo João Até Ver.
– Pouco importa – concluía a minha avó, que esta história me contou. – O que vale é que cada um seja conhecido pelo que de bom fizer. Se for pelo que de mal fizer, então, sim, já terá razão para se envergonhar do nome.
Grandes verdades ensinava a minha avó, de nome Olívia Torrado, que, todos concordarão, não é um nome assim muito vulgar…
António Torrado

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Estudo em casa: Dica do Dia


História do Dia: Um rato a mais

Conta-se que um ratinho salvou, uma vez, um leão, que tinha caído numa armadilha. Roeu, roeu e o leão safou-se da rede em que se deixara caçar.
Muito grato ao minúsculo roedor, que mais uma vez provara que os grandes nunca devem desprezar a ajuda dos mais pequenos, o rei leão deu uma festa em honra do seu salvador.
Por altura dos discursos, o leão, diante da bicharada reunida, elogiou o ratinho e a força dos seus dentes. Sua Majestade estava comovida.
– Para provar a minha gratidão, dou-te o direito de escolher o que tu quiseres, em paga dos teus serviços.
Cabia ao rato a vez de responder. Pôs-se em bicos de pés e disse:
– Quero casar com a tua filha, para vir a ser, mais tarde, ao lado dela, o rei dos animais.
Com isto é que o leão não contava, mas não podia voltar com a palavra atrás.
A princesa leoa ficou furiosa. Ela casar com um rato?
Que ridículo!
Já a orquestra dos elefantes começava a soprar, no fim do banquete, dando início ao baile real.
– Os noivos, os noivos! Eles que dancem! – gritavam de vários lados.
Muito compenetrado do seu papel, o ratinho foi buscar a princesa. A vénia com que ele a convidou era de uma elegância sem igual.
O pior foi durante a bailação, propriamente dita. O rato podia valsar maravilhosamente, mas o par ajudava pouco...
Primeiro levou uma pisadela que quase o esborrachava.
Depois apanhou com uma patada que o atirou para o colo de um dos elefantes da orquestra.
Muito contundido, o rato teve de desistir da dança e da noiva.
Ela não se importou mesmo nada e ele, embora humilhado, suspirou de alívio, quando se viu longe daquela festa em que, pela primeira vez na vida, se sentira a mais.
                                                            
                                                                                                                                    António Torrado 


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Reflexão do Dia: A Leitura Aproxima as Pessoas



Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura. Ao entrar na pele de diferentes narradores, ao sentir-se parte de outras vidas, o leitor vai-se percebendo também parte da restante Humanidade. Tenho para mim, e atrevo-me a partilhar com vocês esta convicção — ingenuidade, dirão os cínicos —, que os grandes leitores tendem a ser menos inclinados à violência. Primeiro, porque a violência é sempre um recuo do pensamento. Depois, porque a leitura, enquanto exercício de alteridade, aproxima as pessoas.

Venho de um país que sofreu uma das mais longas e cruéis guerras civis do nosso tempo. Os fazedores de guerras civis sabem que, para triunfarem, têm de começar por desnacionalizar o inimigo. A seguir, passam a questionar a sua humanidade. Primeiro, o inimigo é um estrangeiro, depois um monstro. Um monstro, ainda para mais estrangeiro, pode ser morto. Deve ser morto.

A boa literatura trabalha em sentido contrário. Dá-nos a ver a humanidade dos outros, inclusive dos que nos são estrangeiros. Inclusive dos monstros.

José Eduardo Agualusa

Estudo em casa: Dicas para te sentires seguro

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Boa Páscoa e Boas Leituras!


História do Dia: Terá sido um sonho?

Ia um grande movimento no roseiral ao lado da casinha do jardim. Abelhas, abelhões, vespas e moscardos zumbiam e zuniam em volta dos cálices das florinhas. Mas hoje, os pequenos hóspedes dos arbustos não andavam tão ávidos à procura de comida. Estavam a conversar sobre os homens, de quem só raramente tinham alguma coisa boa para contar, porque os bichos de duas pernas andavam sempre atrás deles, procuravam matá-los com sprays, os enxotavam das flores, fatias de bolo e cestos de merendas, ou os perseguiam com caça-moscas.
— Até parece que têm medo de nós! — admirava-se um abelhão — E eu que nunca fiz mal a uma pessoa!
—Eu também não!
—E eu muito menos!
—E vocês acham que nós fizemos?
E continuaram a falar alto. Os animais estavam de acordo numa coisa: nunca nenhum deles fizera mal a um ser vivo. Porque é que os homens, que dizem saber sempre tudo, não sabiam aquilo?
— Mas ontem — observou uma vespa — passou-se uma coisa estranha comigo. Estava a comer numa silva, quando se aproximou uma criança com uma tigela. Já estava para fugir, quando reparei: a criança não me enxotou! Não. Perguntou antes delicadamente se também podia colher amoras. Claro que eu não tinha nada contra! A criança encheu a tigela e despediu-se com um alegre “Adeus!”. Digo-vos que fiquei muito admirada!
—Se calhar enganámo-nos acerca dos homens —disse a vespa, pensativa.
—Ou foram os homens que mudaram? — respondeu o besouro.
—Seria justo! —disse o moscardo. —O mundo é de todos!
—Hurra! —gritaram as abelhas, de contentes. — Os homens perceberam!
De repente, ouviram vozes humanas.
— Ui! — gritou uma voz horrorizada. — A nossa roseira está cheia de bichos! Temos de fazer qualquer coisa!
Imediatamente se aproximaram do arbusto mãos com paus e sprays de veneno.
—Ide embora, bichos —gritavam as vozes.
Os insetos puseram-se a andar.
— O dia de ontem deve ter sido um sonho, não acham? — disse mais tarde o moscardo com tristeza.
— Ontem também me aconteceu uma coisa idêntica — disse a abelha. — Foi no prado dos trevos. Eu e umas colegas voávamos de um lado para o outro à procura de néctar, quando apareceu um parzinho de namorados. Estávamos para nos ir embora, mas os jovens perguntaram delicadamente se podiam sentar-se algum tempo à nossa beira. “O prado é de todos”, respondemos, e eles sentaram-se na erva ao nosso lado e nós pudemos prosseguir com o nosso trabalho sem sermos incomodadas. Para dizer a verdade, foi divertido andar a zumbir em volta deles e mais tarde ainda nos agradeceram pelo belo concerto. O que dizem vocês a isto?
— Alguém que entenda os humanos! — resmungou um moscardo. — A nós, quase nos estripavam por medo. Mas ontem, um homem levou-me num jornal para fora de casa, onde eu andava baralhado. E ainda me disse “Passa bem!”. Esquisito, não?
—É esquisito!
E cada animalzinho tinha uma história semelhante para contar sobre o dia anterior.
Elke Bräunling
Da wird dia Angst ganz klein
Limburg, Lahn Verlag, 1998
(Tradução e adaptação)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

História do dia: A carpa



Embora fosse um camponês trabalhador, a colheita foi muito pobre naquele ano devido à ausência das chuvas, a ponto de mal ter para alimentar a mulher e os filhos. Em situação desesperada, não teve outro remédio senão recorrer a um abastado nobre para lhe suplicar:
— Senhor, fie-me alguns grãos para não morrermos à fome.
— Está bem — respondeu o poderoso. — Vou dar-te bem mais do que aquilo que me pedes: vou emprestar-te várias moedas de ouro, mas terás de esperar uns meses até que faça a coleta dos impostos, está bem?
— Quero contar-lhe uma coisa, senhor — disse o camponês. — Quando vinha para lhe suplicar ajuda, ouvi uma voz angustiada que pedia socorro. Ao acudir ao chamamento, vi que se tratava de uma carpa que se encontrava numa terrível situação. Estava caída no meio do poeirento caminho, sob um sol abrasador e dizia:
— Sou do rio e estou a morrer neste pó. Por favor, não tens um balde de água onde eu possa mergulhar?
Respondi-lhe:
— Está bem, está bem. Vou fazer mais do que isso: vou trazer-te uma bacia muito grande, mas terás de esperar até que vá para Sul e traga água do rio que lá existe, está bem?
Então a carpa, à beira da morte, disse-me:
— Fazes promessas, mas não me facultas a única coisa que pode salvar-me a vida: um balde de água. Quando trouxeres a bacia, já terei morrido.
Muitas vezes não só não somos generosos como pretendemos justificar a nossa ausência de generosidade servindo-nos de pretextos ou de falsas justificações. A avareza torna-nos insensíveis, endurece-nos o coração e faz-nos viver de costas voltadas para as necessidades alheias, esquecendo-nos de ser solidários.
O antídoto para a avareza é a generosidade, uma das qualidades mais belas do ser humano, que é preciso aprender a cultivar. É também fruto da compaixão e de uma perceção correta das coisas. A compaixão consiste em compreendermos o sofrimento alheio, mas, também, em usarmos os meios que temos ao nosso alcance para o prevenir ou minorar.
Ramiro Calle
Os melhores contos espirituais do Oriente
Esfera dos Livros, Lisboa, 2010