sexta-feira, 29 de maio de 2020

Histórias do Dia: "A carochinha"

Em tempos de confinamentos, surgem trabalhos fantásticos dos nossos alunos e família.
Partilhamos a versão de Luísa Dacosta de " A carochinha", um  trabalho do aluno Diego Caldas (3MAR) e família.






quinta-feira, 28 de maio de 2020

Diverte-te com os quizzes do Plano Nacional de Leitura!

Jogos, de várias tipologias ,que  abordam de uma forma lúdica questões lexicais, semânticas, sintáticas, ortográficas e até de pontuação, constituindo passatempos que testam o nosso nível de domínio da língua.
Prime a imagem e joga!


Livros e Quizzes PNL 2017

Em março, o PNL2027 iniciou a publicação semanal de desafios sobre livros e autores de obras PNL2027, no Instagram do PNL2027.
Estes desafios são publicados na Stories do Instagram e do Facebook do PNL2027 e podem posteriormente ser consultados nos destaques da página do desafio.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

História do Dia: Joca e os bolos

O Joca, quando vai visitar a avó, vem de lá sempre de barriga cheia.
É que a avó do Joca é doceira e tem uma casa de chá. A bem dizer, a casa é de bolos, com chá para ensopar os bolos.
- Já provaste este bolinho de amêndoas? – pergunta a avó ao Joca. Mesmo que já tenha provado, o Joca volta a provar.
- Queres umas bolachinhas de manteiga? – pergunta a avó ao Joca. Não havia ele de querer… Mas a avó doce e terna não se esquece da filha, mãe do Joca, muito gulosa também. É de família.
- Vais levar para casa esta meia dúzia de nozes douradas, que acabei de fazer – diz a avó ao neto.
Ele não se incomoda com o peso, tanto mais que, a meio do caminho, a meia dúzia está reduzida a metade… Quem já comeu três nozes entre uma casa e outra não poderá ainda, à porta de casa, comer mais uma? Pois pode.
 - Trago-te uma noz dourada que mandou a avó – diz o Joca, um descarado.
- Só uma? – estranhou a mãe. – Não me digas que comeste as outras? Como fizeste isso?
- Fiz assim – e o Joca mete à boca a última noz do embrulho.
António Torrado, 100 histórias bem dispostas 4ª edição, Edições ASA, 2008 (excerto)

terça-feira, 26 de maio de 2020

Ainda a propósito do Dia de África...Nha Mininu

Partilhamos um projeto interessante, que visou a recolha de canções tradicionais infantis das várias regiões da Guiné-Bissau e a produção de um disco que pudesse ser, simultaneamente, um arquivo simbólico desta música e um objeto lúdico capaz de cativar crianças e adultos de todo o mundo. Premindo a imagem terás acesso à pagina do projeto e onde encontrarás, para além das canções, atividades sobre as mesmas.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Sebastião e Silva - Pedagogo e Matemático


Para assinalar o dia de hoje, o 8.ºD partilha convosco o trabalho desenvolvido no âmbito do projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular.

Sebastião e Silva

Mandala criada com a aplicação: https://www.staedtler.com/intl/en/mandala-creator/

Aquele que é considerado o maior matemático nascido na Península Ibérica em todos os tempos precisa de ser consagrado, não só em todo o mundo científico, mas principalmente em Portugal.”
Pedro Abellanas, Professor da Universidade de Madrid

Faz hoje 48 anos que faleceu José Sebastião e Silva, professor universitário, notável pedagogo, militante e investigador em matemática, nascido em Mértola, em 12 de dezembro de 1914, e falecido em Lisboa, em 25 de maio de 1972.
Além da importantíssima obra de investigação, Sebastião e Silva preocupou-se profundamente com o ensino da matemática, escrevendo livros que se tornaram bastante conhecidos: Compêndio de Matemática e Compêndio de Geometria Analítica, que primaram pelo rigor matemático, pela linguagem precisa e que constituíram um fator de modernização do ensino da Matemática. Para além duma renovação profunda nos currículos, foram introduzidas novas pedagogias e didáticas, tendo como principal objetivo fomentar o gosto pela investigação, quer no aprofundamento do conhecimento científico, quer no estudo da história do pensamento matemático.”

On this day, 48 years ago, José Sebastian e Silva passed away. He was a university professor, a notable pedagogue, a militant and a researcher in mathematics. He was born in Mértola, on December 12, 1914, and died in Lisbon, on May 25, 1972.
In addition to the very important research work, Sebastião e Silva was deeply concerned with the teaching of mathematics and writing books that became well known such as Compendium of Mathematics and Compendium of Analytical Geometry, which excelled in mathematical rigour and in precise language. These books were crucial to modernizing the teaching of mathematics. There was not only a deep renewal in the curricula, but new pedagogies and didactics were also introduced with the main goal of encouraging the interest in research (both in delving into scientific knowledge and in the study of the history of mathematical thinking).

História do Dia: O macaco e o cágado (Moçambique)



Tendo o cágado feito amizade com o macaco, disse este certo dia:
 – Amigo, quero que venhas almoçar a minha casa. O cágado, todo contente, respondeu:
 – Agradeço-te muito o convite. Amanhã lá estarei.
No dia seguinte, o cágado dirigiu-se a casa do amigo. Quando lá chegou, viu que o macaco e a macaca tinham matado um galo e cozinhado chima. O macaco pousou a comida na mesa e disse:
– Ora vamos lá comer a chima e este belo galo.
Ao ver isto, o cágado pensou para consigo: “Então… o meu amigo põe a comida na mesa, sabendo que eu não arranjo maneira de lá chegar?”. Ainda tentou subir, mas nada conseguiu: as pernas pequenas e a pesada carapaça não lho permitiam. E, sem se importarem com o amigo, o macaco e a companheira banquetearam-se com o galo e a chima.
Ofendido e com fome, o cágado decidiu regressar a casa, não sem antes convidar o macaco:
 – Agora, hão-de ir vocês a minha casa.
 – Lá estaremos na próxima semana – disse o macaco em tom jovial. E combinaram o dia.
Na semana seguinte, o macaco e a macaca atravessaram um campo e, saltando de árvore em árvore, chegaram à casa do amigo. Aí deram conta de que também o cágado tinha preparado um galo e feito chima – e lamberam os beiços.
O cágado deitou fora a água das panelas e disse para o amigo:
 – Não há água, mas podem lavar as mãos no poço. Tenham cuidado para não as porem no chão quando voltarem. Ao macaco e à macaca o conselho pareceu lógico. Foram ao poço, lavaram as mãos e começaram a caminhar só as patas de trás. Ora acontece que o cágado tinha queimado todo o capim em volta da casa e o chão estava coberto de cinza. Como o macaco e a macaca não aguentavam andar só nas patas traseiras, pousaram as mãos no chão, ficando com elas todas sujas. Tiveram de voltar ao poço para de novo as lavar. E fizeram isto tantas vezes que acabaram por desistir. Despediram-se então e foram para casa, amuados e com fome. Quanto ao cágado, deliciou-se com o galo. E, desde essa altura, não voltaram a ser amigos.

Dia de África

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África.
Este dia recorda a luta pela independência do continente africano e simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.
A data é celebrada em vários países de África e pelos africanos espalhados pelo mundo. Em países como o Gana, o Mali, a Namíbia, a Zâmbia e o Zimbábue, o Dia da África é um feriado.


A África apresenta 30.230.000 km² de extensão territorial, distribuídos por 53 países, sendo a Nigéria o mais populoso. O maior país de África é a Argélia, enquanto as ilhas Seychelles são o país mais pequeno. O ponto mais alto da África é o Kilimanjaro (5895 m). O Lago Assal em Djibouti é o mais baixo (155 m abaixo do nível do mar).
É o segundo continente com mais população do mundo e o continente ao qual pertence a grande parte da população desnutrida e onde se apresentam os maiores problemas sociais da atualidade.
Contudo, a África é dona de grande diversidade de culturas e das mais belas paisagens naturais.(https://www.calendarr.com/portugal/dia-da-africa/)

sábado, 23 de maio de 2020

Hoje assinalamos a data de nascimento de Sacadura Cabral, o aviador pioneiro

Oficial da armada e aviador, foi o piloto na viagem de travessia do Atlântico Sul, com Gago Coutinho. Desapareceu no mar do norte quando voava um hidroavião da Holanda para Portugal.
Sacadura Cabral nasceu em 23 de maio de 1881 e ficou conhecido por ter feito dupla com Gago Coutinho na viagem de travessia do Atlântico Sul em 1924.
Os dois oficiais da marinha conheceram-se nas ex-colónias africanas onde Sacadura serviu durante a primeira Guerra Mundial.
Foi ainda um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, diretor dos serviços de Aeronáutica Naval e comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa.
Após a travessia Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram aclamados em Portugal e no Brasil.
Desapareceu no mar do norte quando realizava o transporte de um avião Fokker para Lisboa. O corpo nunca foi encontrado e do aparelho foi recolhido apenas um flutuador.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Dia do Autor Português: Luísa Ducla Soares, Cristina Completo e Daniel Completo

Ainda, a propósito do Dia do Autor Português, deixamos mais três autores de diferentes áreas artísticas:

A Literatura com Luísa Ducla Soares e o Jantar dos animais


As ilustrações de Cristina Completo



O poema musicado por Daniel Completo

A poesia é...

Desafiamos-te a apresentar uma definição de poesia. Mas, afinal, o que é poesia? Definir poesia não é fácil, por isso deixamos aqui uma pequena ajuda com "a roda decide". Faz a roda girar três vezes, clicando nela. Depois é só escrever um parágrafo que defina a "poesia", iniciando por "A poesia é...". Nessa definição deverão ser utilizadas as três palavras que a roda forneceu. 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Dia do autor português: António Gedeão, Manuel Freire e Francisco Simões

Nesta data pretende-se homenagear os autores portugueses nas diferentes áreas artísticas: literatura, música, fotografia, cinema, pintura, escultura... Vamos ao longo do dia lembrar alguns dos nossos autores!

Começamos por António Gedeão e Manuel Freire e a Pedra Filosofal. E a pretexto de... deixamos a escultura  de Francisco Simões que retrata António Gedeão como um alquimista medieval e ao mesmo tempo da posteridade, e que pode ser vista no Parque dos Poetas em Oeiras.


A Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.



A propósito do Doodle da Google - Celebrating Mbira: an interactive experience


Sabes onde fica o Zimabué?

Descobre um pouco mais sobre o instrumento típico do Zimbabué. Prime a imagem.


Descobre as Cascatas de Vitória.

terça-feira, 19 de maio de 2020

7 Dias com os Media: Trabalhos realizados

Partilhamos o mural digital onde disponibilizamos os trabalhos elaborados pelos alunos para responder ao desafio "7 Dias dias com os Media sem sair de casa".

Feito com Padlet

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Dia Internacional da família

Para comemorar o Dia Internacional da Família lançamos um desafio às famílias do nosso agrupamento. Disponibilizamos o mural onde juntamos todos os trabalhos que recebemos e iremos receber. Será atualizado à medida que mais trabalhos nos sejam enviados.
Parabéns a todos pela vossa criatividade!

Made with Padlet

Dia Internacional da Família

Para comemorar o Dia da Família, o 2VC produziu estes móbiles cheios de carinho!






Dia Internacional dos Museus: Desafio

Hoje é Dia Internacional dos Museus e aproveitamos para vos deixar um mural digital interativo com inúmeras oportunidades de visita virtuais. Claro que não substituem uma vista ao local, mas será uma experiência diferente, adaptada às circunstâncias atuais.
Assim, temos hoje um desafio: comemorar esta data de forma diferente, mas que vai valer a pena! Visita os museus portugueses e outros mais distantes. Depois, partilha connosco, através dos comentários do blogue, aquele que mais te encantou e porquê.

Made with Padlet

sábado, 16 de maio de 2020

História do Dia: A Grande Fábrica de Palavras

A História do Dia Nacional dos Cientistas


"O desafio do desenvolvimento científico atinge o país inteiro e põe em jogo mecanismos que atravessam a sociedade toda. Sem cultura científica mínima são escassas as oportunidades de cidadania autêntica, de construir ou participar nas escolhas de sociedade [...]"
José Mariano Gago

O Dia Nacional dos Cientistas foi instituído em 2016 por Resolução da Assembleia da República*, com o objetivo de celebrar e reconhecer a contribuição histórica, relevante e inovadora da comunidade científica para o avanço do conhecimento e, assim, para o progresso e o bem-estar da sociedade. O dia 16 de maio - data do nascimento de José Mariano Gago - foi escolhido para homenagear o seu legado. O Festival de Ciência Online celebra as conquistas da comunidade científica e assinala a homenagem ao legado de José Mariano Gago.

* Resolução da Assembleia da República Nº 228/2016 que consagra o dia 16 de maio como Dia Nacional dos Cientistas.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dia Internacional da Família

Para assinalar o Dia Internacional da Família (15 de maio), nestes dias em que temos de ficar mais por casa e em que convivemos mais com a nossa família, lançamos o seguinte desafio:

Em família, ouvir/ler a história de Todd Parr “O livro da família”, disponível abaixo. De seguida criar uma ilustração (desenho, colagem...) que represente a sua família. Enviar o resultado final, através do correio eletrónico para bibliotecas@aevaladares.pt., identificando-o com o nome da família e a turma/sala (Ex. Cunha_turma) do(a) educando(a). Os trabalhos serão publicados no nosso blogue.

Visita virtual ao Pavilhão do Conhecimento

E como  é Dia Nacional dos Cientistas!


Sugestão para amanhã!



Como aceder:
No dia 16 de maio, entre as 16h00 e as 19h00, ligue-se a www.cienciaviva.pt/festival ou   diretamente no YouTube para assistir à transmissão em direto do Festival de Ciência Online.

História o Dia: A árvore Emily


O dia começou como muitos outros. Eu andava sempre a correr, tentando fazer muito mais do que cabia nas vinte e quatro horas do dia, não dando atenção a ninguém ou a nada. Parecia que os filhos estavam sempre a ensarilhar-se nos meus pés e, aos quatro anos e aos dezoito meses de idade, claro que estavam, outra coisa não seria de esperar.
Ouvi muitas vezes que estes eram os melhores tempos, que as crianças iriam crescer rápido demais, que eu deveria aproveitar os momentos em que elas eram ainda pequenas e necessitavam realmente da minha atenção. No entanto, eu não conseguia ver tudo isso. Andava cega com o excesso de trabalho em cima da minha secretária, a pilha de contas na caixa do correio e a longa lista de coisas a fazer.
Estava uma manhã quente. Levei por isso as crianças lá para fora e comecei a tirar ervas daninhas dos canteiros de flores, enquanto Emily e Logan brincavam por perto. Estava feliz por ter um momento só para mim, enquanto os miúdos permaneciam ocupados. Não demorou muito até que me apercebesse que os dois estavam sentados debaixo de uma pequena árvore no quintal, a olhar para os seus ramos e a cantar uma canção. Nós tínhamo-la apelidado de “Árvore Emily”, apenas porque tinha sido plantada quando Emily era ainda bebé.
Nesse primeiro verão, sentávamos a bebé na sua piscina de brincar, ao lado do recém-plantado carvalho americano, espécie escolhida precisamente pela sua capacidade de se desenvolver rapidamente.
E, agora, aqui estávamos nós — e os dias e meses tinham passado e também Emily tinha crescido. E tinha-se tornado uma criança vivaça e curiosa, sempre desejosa de aprender e explorar e de ajudar o seu irmãozinho Logan a fazer o mesmo.
A curiosidade tomou conta de mim e aproximei-me para perguntar porque estavam ali sentados, aparentemente a cantar para a minúscula árvore.
Logan apenas sorriu, mas Emily disse-me, com suavidade, na sua vozinha pragmática: “Tens de passar algum tempo com as coisas, se queres que elas cresçam lindas e fortes”. E virou-se, para terminar a sua canção.
Bom, as ervas daninhas não foram arrancadas naquele dia. Em vez disso, entrei em casa, peguei numa manta e num farnel para piquenique e juntei-me à minha filha e ao meu filho, debaixo da árvore Emily.

Carol Troesch
Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Steve Zikman
Chicken soup for the nature lover’s soul
Florida, HCI, 2004
(Tradução e adaptação)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Sugestão: Visita Virtual ao Zoo da Maia

A sugestão de hoje é conhecer o Zoo da Maia. ´Prime na imagem e boa visita!


História do Dia: O menino que escrevia versos


— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
[...]
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, [...]
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte elétrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
— Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo…
Mia Couto
O fio das missangas
São Paulo: Companhia das Letras, 2004
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2017/02/04/o-menino-que-escrevia-versos/#more-4262

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Sugestão: Visita ao Teatro Nacional São João


Ao premir na imagem será possível aceder à página onde teremos oportunidade  de visitar, até 31 de maio, este teatro.

terça-feira, 12 de maio de 2020

História do Dia: Esta horta é um lugar de maravilha!


No sítio onde se guarda a lenha há teias de aranha, enormes: lembram uma toalha de renda!
O musgo cresce junto à nora, e o céu, ali, é um céu verde, feito da folhagem da maior nogueira que deve existir na terra. Porque o milagre maior é, realmente, esta nogueira.
Na horta há ainda outra coisa espantosa! Uma coisa que maravilha e não me canso de olhar: uma velhinha, a dona de tudo aquilo.
Tem cem anos de vida!
Cem anos!
Tem mesmo. De verdade.
Na primavera, quando o tempo está doce, as abelhas, as borboletas, as andorinhas, andam numa pressa, logo de manhã, e a filha, que também já é muito velha, pega numa cadeirinha que parece de brincar e senta-a debaixo da nogueira. Senta a velhinha de cem anos, que não se sabe bem se está acordada, se está a dormir, se está a pensar.
Logo que toca para o recreio, já disse, corro para lá. O Tomba-Lobos lambe-lhe as mãos e ela ri-se. Mas não diz nada. Faz-lhe só uma festinha, na cabeça.
À sua volta andam as aves e o perfume doce das laranjeiras em flor.
Então, eu sento-me na pedra do tanque. Sento-me e olho-a.
Olho-a muito. Parece uma raiz! Parece uma boneca pequenina! Parece um tronco que está à espera que lhe nasçam folhas e flores.
Já viu tantas estações do ano! Viu guerras e viu paz. Gente. Tanta gente. Searas a arder, gritos, casas a construírem-se, casas a ficarem só parede e memória.
Viu nascer trigo e papoilas, colher azeitonas e fazer azeite, camponeses a cantarem abraçados e tristes, no tempo do desemprego. O que ela deve ter visto!
Já foi pequenina como eu, mas não foi à escola porque, dantes, este largo não tinha escola: era apenas seara e árvores. De certeza que viu nascer esta nogueira. Viu-a crescer, dar frutos, tapar o sol de verde e aves.
Mexeu na terra, semeou coentros, couves, alfaces, plantou flores, deitou galinhas, viu nascer pintainhos, bezerros, teve filhos, netos, bisnetos, e sentou-se aqui, nesta sombra fresca durante os seus cem anos de história. Às vezes, toco-lhe nas mãos.
Os dedos dela parecem raízes!
Uma manhã, apanhei um malmequer e pus-lho no colo.
Ela pegou-lhe devagar, como se estivesse a ver o Sol nascer. Olhou para mim e era como se descobrisse o mundo pela primeira vez.
Sorriu.
Lá do fundo do tempo, arrancou uma voz fina, uma voz que não era voz: era vento, era chuva, era a água da nora sobre as avencas. E disse assim:
— Deem laranjas a esta menina!
Depois, adormeceu com o malmequer na mão.
E eu olhava-a e parecia-me que, sem ela ali, tudo ficaria incompleto e sem sentido naquele lugar de infância.
Maria Rosa Colaço
Maria tonta como eu
Distri Editora, s/d


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Sugestões de Leitura - Cápsula de Livros


O Plano Nacional de Leitura recomenda Cápsula de Livros, um podcast das BLX (Bibliotecas de Lisboa). Trata-se de um serviço online de sugestões de leitura, onde se fala de livros, de diferentes géneros literários, que estão nas bibliotecas, nas livrarias, nas estantes de casa e também dos que podem ser descarregados para aparelhos eletrónicos.
Seguimos a recomendação e partilhamos a sugestão de leitura do livro Os da minha rua de Ondjaki. 
Para ouvir, prime a hiperligação e descobre também várias outras sugestões.


sábado, 9 de maio de 2020

Hoje comemora-se o Dia da Europa

Hoje comemora-se o dia da Europa!



Nós, 8ºD, decidimos assinalá-lo enviando esta mandala e lembrando que…
Quando pensamos na União Europeia, dificilmente a associamos aos prémios Nobel, no entanto…Em 2012, a União Europeia recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos seus esforços em prol da paz, da reconciliação, da democracia e dos direitos humanos na Europa.
A União Europeia decidiu doar o prémio monetário (930 000 euros) às crianças que não tiveram a sorte de crescer num país em paz. Além disso, decidiu complementar o montante do prémio, totalizando dois milhões de euros, que foram atribuídos a quatro projetos educativos destinados a crianças vítimas de conflitos.

9 de maio: Dia da Europa

Feito com Padlet

História do Dia: A Lenda de Europa



Europa era uma linda princesa fenícia. Como ainda não chegara à idade de casar, vivia com os pais num magnífico palácio e tinha por hábito dar longos passeios com as amigas nos prados e nos bosques.
Certo dia quando apanhava flores junto da foz de um rio foi avistada por Zeus (o deus supremo) que se debruçava lá do Olimpo observando os mortais. Fascinado com tanta formosura, decidiu raptá-la. Para evitar a fúria da sua ciumenta mulher, quis disfarçar-se. Nada mais fácil para quem tem poderes sobre naturais! Tomou a forma de um touro. Um belo touro castanho com um círculo prateado a enfeitar a testa.
Desceu então ao prado e deitou-se aos pés da Europa. Ela ficou encantada por ver ali um animal tão manso, de pelo sedoso e olhar meigo. Primeiro afagou-o, depois sentou-se-lhe no dorso e… o touro disparou de imediato a voar por cima do oceano. A pobre princesa ficou assustadíssima. Mas não tardou a perceber que o raptor só podia ser um Deus disfarçado, pois entre as ondas emergiam peixes, tritões e sereias a acenar-lhes. Até Poseídon apareceu agitando o seu tridente. Muito chorosa, Europa implorou que não a abandonasse num lugar ermo.
Zeus consolou-a, mostrou-se carinhoso, prometeu levá-la para um sítio lindo que ele conhecia fora da Ásia. Prometeu e cumpriu. Instalaram-se na ilha de Creta e tiveram três filhos que vieram a ser famosos.


Agora o nome da princesa é que ficou famosíssimo! Agradou a poetas da Grécia Antiga que passaram a chamar Europa aos territórios para lá da Grécia. E agradou ao historiador Hérodoto, que no séc. V a.C foi o primeiro a chamar Europa a todo o continente.

 in «A Europa dá as Mãos», Ana Maria Magalhães / Isabel Alçada 
Centro de Informação Europeia Jacques Delors, 1995.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

7 Dias com os media: Desafio 3.ºCiclo

No âmbito da comemoração da iniciativa 7 Dias com os Media sem sair de casa (3 a 9 de maio), cuja temática este ano se centrou na desinformação, a Biblioteca Escolar propôs o seguinte desafio: 
Após visualização e reflexão sobre o material disponibilizado, os alunos foram convidados a deixar o seu comentário no  mural digital que partilhamos abaixo.

Feito com Padlet

História do Dia: A gaivota que não queria ser


Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.
— Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.
— Também há quem as cozinhe com ervilhas — interrompeu-a uma gaivota trocista.
— Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.
Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: “Gaivota estufada”, “Gaivota de cabidela”, “Gaivota guisada com batatas”…
Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.
A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.
As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.
Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.
— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota. 


António Torrado
adaptado

7 Dias com os media: 9 Tipos de Notícias Falsas.


Notícias Falsas de Recursos Biblioteca

quinta-feira, 7 de maio de 2020

História do Dia: A Sara tem um coração pesado


A Sara tinha um coração pesado.
E levava-o para todo o lado.
Para o autocarro.
Para a escola.
Para o recreio.
Levava-o sempre, até quando andava de bicicleta.
Não era fácil dormir com um coração tão pesado… e tomar banho era um pesadelo.
A Sara sabia que teria de carregar o seu coração para sempre. Só queria que não fosse tão pesado.
Uma certa manhã, na paragem do autocarro, algo passou por ela a pairar.
— O que estás a fazer aí em cima? — perguntou a Sara.
— O meu coração é demasiado leve — respondeu um rapaz.
A Sara seguiu o rapaz enquanto ele era levado pelo ar.
Ele flutuou por entre as árvores, pelos prédios, e pelas nuvens baixas.
Finalmente, o rapaz acabou por aterrar num parque próximo da cidade. A Sara ajudou-o a levantar-se.
— Isto acontece-te muitas vezes? — perguntou ela.
O rapaz acenou com a cabeça.
— É pior quando está vento — respondeu. — O meu coração deixa-se levar.
A Sara soltou um suspiro.
— O meu coração é tão pesado…
E sentaram-se os dois no parque, a observar e a pensar.
Foi então que, sem nada dizer, a Sara tirou uma das fitas que lhe prendiam o cabelo.
O rapaz ficou a olhar para a Sara enquanto esta lhe tirava o coração das mãos e o atava ao seu próprio coração.
— Que te parece? — perguntou a Sara.
Ele respondeu com um sorriso.
E assim, com os corações presos um ao outro, a Sara e o rapaz voltaram para a cidade.
Peter Carnavas
Sarah’s Heavy Heart
New Frontier Publishing, 2009
(Tradução e adapthttps://historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com/2019/02/12/a-sara-tem-um-coracao-pesado/ação)

Desinformação: identificar "notícias falsas"

7 Dias com os Media: Ler e Refletir


"Em Abril, a Comissão Europeia estava a detectar mais de 2700 exemplos de informação falsa publicada nas redes sociais por dia. “É inútil lavar as mãos”, ou “a covid-19 é apenas um perigo para os idosos” estão entre os exemplos mais populares..." Para ler o artigo completo clique na imagem.




quarta-feira, 6 de maio de 2020

História do Dia: A Teia de aranha



Eu tive de ir ao sótão procurar uns jornais antigos.
Como toda a gente sabe, o sótão é o lugar da casa que menos é limpo. Nunca se convida as visitas para ir ao sótão. Nunca se utiliza o sótão, cheio de baús, malas e caixotes, para dar festas de aniversário. Até talvez não fosse má ideia…
Eu a entrar no sótão, e a esbarrar com uma teia de aranha.
— Que falta de consideração — barafustou a aranha. — Uma teia que me deu tanto trabalho a fabricar!
— Foi sem querer. Desculpe — disse-lhe eu, um tanto encavacado.
— Quem estraga, arranja — gritou-me ela.
— Mas eu não sei tecer teias de aranha…
— Então, não tivesse rasgado. Quem estraga, arranja — insistiu ela.
Não tenho feito outra coisa. Pedi instruções a um tecelão, a uma bordadeira e a uma senhora que trabalha em malhas. Cada uma ensinou-me o que sabia e eu, mal ou bem, com uma agulha muito fininha e um fio de nylon ainda mais fino tenho passado os dias no sótão a cosipar a teia da dona aranha.
Com tantas responsabilidades na minha vida, tantas histórias para contar, e sucede-me a mim uma destas.
Ainda se a aranha se calasse, mas não se cala:
— Quem estraga, arranja.
E sempre a desfazer do meu trabalho:
— Que falta de jeito. Que horror.
Mais dia, menos dia, também eu me enervo e mando a aranha contar histórias, em vez de mim. Sempre queria ver como é que dava conta do recado.

António Torrado
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2008/10/02/a-teia-de-aranha/

7 dias com os Media: Media em Confinamento

Conheça o  projeto  do nosso agrupamento para assinalar a semana dos 7 Dias com os media sem sair de casa.



7 Dias com os media: Sugestão-Visita ao Museu Virtual da RTP

 Clique na imagem e visite o Museu Virtual da RTP!

terça-feira, 5 de maio de 2020

A Língua Portuguesa no Mundo

Dia da Língua Portuguesa

Feito com Padlet

Uma História por Dia: A panela milagrosa (Cabo Verde)




No arquipélago de Cabo Verde, há notável escassez de vegetação. Causa — falta de água. Rareando as chuvas, diminuem os produtos da terra, indispensáveis à alimentação; não há pastos para os gados, logo não há carne. Isto quer dizer: a fome reina em casa dos mais pobres.
Ficai sabendo, meus amigos, que o Chaço, no México, em poucos anos se transformou em deserto, devido ao corte das árvores. Anteriormente, erguia-se ali densa floresta. Mas os homens, tolos e gananciosos, na ânsia de enriquecerem com o produto das madeiras, gradualmente a devastaram. O solo tornou-se incapaz de reter a humidade. Os campos de cultura negaram-se a produzir e os homens viram-se forçados a abandonar a região infértil.
O mesmo se deu no Ceará, em terras brasileiras. E, em Cabo Verde, chega-se a morrer de fome, em virtude das mesmas causas. Por estas explicações, toda a gente compreende o quanto devemos querer bem à boa amiga árvore, que tudo nos dá, sem nos pedir mais do que ligeiros cuidados em plantá-la, tratá-la e guardá-la dos dentes vorazes de alguns animais daninhos e das foices inconscientes dos homens tolos.
Certa manhã ardente, Manuel Francisco – um camponês de pele bronzeada e chefe de numerosa família, desesperado por se ver sem trabalho nem alimento para si e para os seus, foi andando, andando, pela praia que ficava pertinho da sua casa.
Insensivelmente, afastou-se e alcançou um ponto onde jamais chegara. Cansado, sen ta-se num penedo e fica a meditar na sua triste sorte. O dia vai alto e milhares de raios de sol brincam à super fície das águas, esplendem em centelhas luminosas. Manuel Francisco mira ao longe e parece-lhe avistar um ilhéu, desconhecido dele, ao centro do qual se ergue, aprumada e esbelta, uma linda palmeira. Busca nos recantos da praia alguma canoa abandonada, na esperança de encontrar trabalho nesse ilhéu. Procura por aqui e por além e encontra uma canoa velha.
Manuel Francisco é remador hábil. Mete-se na canoa e dirige-se ao ilhéu.
O mar, calmo até àquela hora, embravece de súbito e o remador emprega sérios esforços para acercar-se do ilhéu. Aproa, desembarca, ata a canoa ao tronco dum coqueiro. Este e a palmeira constituem a única vegetação do ilhéu. Manuel Francisco trepa ao alto do coqueiro. Colhe dois cocos magníficos e tenta atirá-los para dentro da canoa. Mas tanto esses dois cocos, como outros que sucessivamente arranca, em vez de caírem dentro da canoa, vão mergulhar no mar.
Desce. Arreliado com a ideia de regressar a casa de mãos vazias, atira-se à água. Bom mergulhador como em regra, o são, os camponeses cabo-verdianos, desce, desce até ao fundo, a ver se agarra algum dos cocos. A sua surpresa é ilimitada ao descobrir, não os seus cocos, mas uma casa lindíssima, erguida no fundo do mar. Espanta-se com a descoberta, e mais aumenta a sua admiração quando, na sua frente, à porta da casa, surge um velhote de compridas barbas brancas e lhe pergunta:
— O que desejas? Não sabes que é proibido aos homens descerem até ao palácio do Régulo dos Mares?
— Senhor, eu ignorava que havia régulos no fundo dos mares — responde tremendo Manuel Francisco. — Eu e a minha família temos fome. Colhi cocos no ilhéu e dei xei-os cair à água. Como já tenho mergulhado muitas vezes, a apanhar as moedas que os passageiros dos vapo res, em S. Vicente, atiram ao mar, vim buscar os meus cocos.
— Bom. Tenho pena de ti. Não te farei mal. Espera-me aqui.
Manuel Francisco esperou um momento. Em breve, o Régulo apareceu com uma panela de barro nas mãos. Entregou-a ao mulato, explicando-lhe:
— Leva-a para tua casa. Quando tiveres fome, é só ordenar-lhe: «Panela, dá-me de comer!» Ela dar-te-á alimento suficiente para ti e para a tua família.
Manuel Francisco agarrou sofregamente a panela e correu para a canoa. Apenas embarcou, decidiu-se a expe rimentar as virtudes da panela. Colocou-a diante de si e ordenou:
— Panela, minha rica panela, faz por mim o que costumavas fazer pelo Régulo dos Mares!
Da panela saiu imediatamente rico jantar, completo e apetitoso, a que não faltava sequer a magnífica sobre mesa.
Remou com presteza, na ânsia de levar mantimentos à família. Mas, ao desembarcar, um pensamento ruim, de cruel egoísmo, lhe impediu a prática desse justo dever.
— E se a minha mulher e os meus filhos, esfomeados como estão, comem tudo, e a panela nada mais tem para me dar? O melhor é guardar segredo e eles que se governem…
Escondeu a panela e, ao chegar a casa, vendo toda a família debilitada com fome, fingiu-se aflito, estendeu-se a um canto e não tardou a adormecer.
A mulher, desconfiada do seu sono tranquilo, bem diferente do da restante família, que enganara o apetite com pequena quantidade de papas de milho, resolveu ficar de sobreaviso.
Nos dias seguintes, principiou a notar que o marido saía e se dirigia a certo lugar, mal a família estava reco lhida. E engordava – o grande maroto – enquanto a mulher e os seus desditosos filhinhos emagreciam a olhos vistos e estavam quase esqueléticos. Uma noite, decidida a esclarecer o caso, a mulher seguiu-o na sombra e veri ficou a má conduta do Manuel Francisco. Este a voltar costas, ela a apoderar-se da panela, a correr à aldeia, em busca da família e, compadecida das desgraças alheias, a chamar também os vizinhos esfomeados, para saciarem o apetite.
A pressa e a miséria de alguns eram tais que, em compreensível descuido, quebraram a panela!
É fácil de imaginar a cólera do Manuel Francisco, quando soube o acontecido.
Espancou a mulher e os filhos, indignou-se com a vizinhança, prometeu vingar-se de tudo e de todos.
No dia seguinte, muito cedo, voltou à praia, embarcou na velha canoa e remou para o ilhéu. Colheu mais cocos, atirou-os à água e de novo desceu ao fundo do mar a buscá-los, na esperança de outra aparição do velho Régulo.
Assim sucedeu. Desta vez, o velhote, depois de ouvir o relato sucedido, encrespou as enormes sobrancelhas e, sem proferir palavra, entrou no seu domicílio, donde trouxe um bonito pau, de madeira rija, polida e brilhante. Ofereceu-o ao egoísta.
Manuel Francisco saltou à canoa, com o maior desembaraço e remou para a costa. Desembarcou e, mesmo à beira-mar, exclamou:
— Pau, meu rico pauzinho, faz por mim o que fazias pelo Régulo dos Mares!
O pau, em movimentos rápidos, desatou a bater no Manuel Francisco. Este, aflito, obrigado a fugir por debaixo de água, arrastou-se como pôde até uma praia distante. Só assim se livrou da pancadaria.
O egoísta compreendeu então a fealdade do seu acto e como fora justo o castigo aplicado pelo Régulo dos Mares. Resolveu emendar-se.
E, fiquem sabendo os meus meninos, emenda foi ela, que nunca mais procedeu como egoísta ou mau.

Emílio de Sousa Costa
Joanito Africanista
Porto, Livraria Figueirinhas, s/d
(excerto adaptado)
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/07/06/a-pan/

segunda-feira, 4 de maio de 2020

7 dias com os media sem sair de casa: Literacia mediática

Feito com Padlet

História do Dia: A flor e o sino





Como é que uma flor e um sino podem caber na mesma história?
Há de ser difícil. A flor tão rasteira e o sino tão alto nada têm a ver um com o outro. Hão de pertencer a histórias diferentes.
Talvez sim e talvez não…
A flor tinha acordado, na ponta de um caule, quando o sino se pôs a badalar. Abriu-se de espanto, porque nunca tinha ouvido música assim: tlim-dlão-dlim…
Mas tudo tem uma lógica, um começo, um antes do que está para vir. Nós contamos.
A erva donde a flor nascera tinha rompido a terra como um dedo espetado, que quer chamar a atenção:
— Perguntem-me porque nasci — gritava a erva, numa vozinha de erva-fina.
Ninguém lhe perguntava.
E ela, impaciente, sempre na sua:
— Perguntem-me porque nasci. Perguntem-me.
Estávamos bem servidos, se tivéssemos de dar conversa a todas as ervas do caminho…
— Então, não querem saber? Perguntem-me — teimava a erva.
Fartos de ouvi-la,  debruçámo-nos, enfim, para a ervinha.
Logo ela, muito direita, na sua importância de erva fresca, nos disse:
— Nasci, sabem porquê? Nasci para dar uma flor.
Olha a admiração! Nisto o sino, tlim-dlão-dlim, tlim-dlão-dlim, e apareceu a flor.
— Quem me chama? Quem me chama? — perguntou a flor, que nasceu a falar.
O sino anunciava um casamento. Era o José mais a Maria que iam casar.
O noivo, antes de entrar na igreja, colheu, à beira da estrada, uma flor com que enfeitou a lapela. Logo por coincidência, a flor que tinha acabado de nascer.
Aí têm como um sino e uma flor podem caber na mesma história. Mas não acaba aqui.
Passado tempo, a flor desprendeu-se da lapela. Já tinha dado um ar da sua graça. Secou, desfez-se, juntou-se à terra. É sempre assim.
Na primavera seguinte, mais coisa menos coisa, o sino outra vez a badalar: tlim-dlão-dlim, tlim-dlão-dlim. Desta vez, era um batizado, o do menino José Maria, filho de Maria e do José.
Depois, houve boda. No centro da mesa, um grande ramo de flores campestres, iguais à que viveu nesta história.
Tudo se multiplica. Pelos tempos fora, o sino vai voltar a bater e as flores a crescer. É uma história que não acaba.

                                                                                                                                        António Torrado


https://contadoresdestorias.wordpress.com/2017/07/21/a-flor-e-o-sino/