quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

O Quarto Rei Mago


Deserto adentro viajam os magos… montados nos seus camelos através da escuridão da noite.

— Vejam, estamos a ser guiados por aquela estrela! — exclamou o primeiro.

— Guiados ao encontro de um rei — concordou o segundo.

— O Rei do Céu e da Terra — acrescentou o terceiro.

Havia um outro homem que viajava com eles.

— Quem me dera ser tão sábio como os meus companheiros — disse para si próprio. — Ter-me-ia inteirado melhor sobre a razão da nossa viagem antes de termos partido.

— A minha prenda está escondida no alforge — murmurou o primeiro.

— A minha vem atada ao cinto — respondeu o segundo.

— E eu trago a minha cosida entre as pregas da túnica — acrescentou o terceiro.

O quarto homem olhou para eles com tristeza.

— Ainda não encontrei uma prenda digna daquele rei — lamentou-se. — Continuo à procura.

— A minha prenda é ouro, porque o rei é poderoso — declarou o primeiro.

— A minha é incenso, porque as orações do rei chegarão a Deus que está no Céu — anunciou o segundo.

— E a minha é mirra, porque o rei será muito famoso em vida mas sê-lo-á ainda mais após a morte — declarou o terceiro.

O quarto homem baixou os olhos.

— Eu nem sequer sei que prenda lhe hei-de dar — suspirou.

Os quatro homens continuaram o caminho pela noite fora, prosseguindo uma viagem que iria prolongar-se por muitos dias e muitas noites.

Por fim, a estrela que os conduzia ficou imóvel no céu nocturno, pairando sobre uma humilde habitação.

— Que lugar tão estranho para um rei — admirou-se o primeiro homem.

— A estrela mostra claramente que estamos no sítio certo — respondeu o segundo.

— Vamos então entrar e oferecer as nossas prendas — disse o terceiro.

O quarto homem ficou à espera do lado de fora.

— Posso ir buscar água para os camelos — disse para si próprio — já que não encontrei uma prenda digna do rei que está lá dentro.

Deslocou-se até ao poço e encheu um cântaro com água. Como era muito pesado, pousou-o no chão por um instante.

Foi então que descobriu uma coisa maravilhosa, e inclinou-se sobre o cântaro para a ver melhor.

— A estrela — disse ele. — A estrela que está no céu, está também no meu cântaro velho e gasto.

Ficou a olhar para ela maravilhado, durante um momento, e a seguir soltou uma sonora gargalhada.

— É isto que vou levar ao rei — disse — a luz do Céu reflectida na água do meu cântaro.

Milagrosamente, a estrela continuou a brilhar no cântaro, fazendo sorrir o Rei-Menino.

Lois Rock (org.)

Contos e Lendas da tradição cristã

Lisboa, Editorial Verbo, 2006


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