quinta-feira, 9 de abril de 2020
História do Dia: Terá sido um sonho?
Ia um grande movimento no roseiral ao lado da casinha do
jardim. Abelhas, abelhões, vespas e moscardos zumbiam e zuniam em volta dos
cálices das florinhas. Mas hoje, os pequenos hóspedes dos arbustos não andavam
tão ávidos à procura de comida. Estavam a conversar sobre os homens, de quem só
raramente tinham alguma coisa boa para contar, porque os bichos de duas pernas
andavam sempre atrás deles, procuravam matá-los com sprays, os enxotavam das
flores, fatias de bolo e cestos de merendas, ou os perseguiam com caça-moscas.
— Até parece que têm medo de nós! — admirava-se um abelhão —
E eu que nunca fiz mal a uma pessoa!
—Eu também não!
—E eu muito menos!
—E vocês acham que nós fizemos?
E continuaram a falar alto. Os animais estavam de acordo
numa coisa: nunca nenhum deles fizera mal a um ser vivo. Porque é que os
homens, que dizem saber sempre tudo, não sabiam aquilo?
— Mas ontem — observou uma vespa — passou-se uma coisa
estranha comigo. Estava a comer numa silva, quando se aproximou uma criança com
uma tigela. Já estava para fugir, quando reparei: a criança não me enxotou!
Não. Perguntou antes delicadamente se também podia colher amoras. Claro que eu
não tinha nada contra! A criança encheu a tigela e despediu-se com um alegre
“Adeus!”. Digo-vos que fiquei muito admirada!
—Se calhar enganámo-nos acerca dos homens —disse a vespa,
pensativa.
—Ou foram os homens que mudaram? — respondeu o besouro.
—Seria justo! —disse o moscardo. —O mundo é de todos!
—Hurra! —gritaram as abelhas, de contentes. — Os homens
perceberam!
De repente, ouviram vozes humanas.
— Ui! — gritou uma voz horrorizada. — A nossa roseira está
cheia de bichos! Temos de fazer qualquer coisa!
Imediatamente se aproximaram do arbusto mãos com paus e
sprays de veneno.
—Ide embora, bichos —gritavam as vozes.
Os insetos puseram-se a andar.
— O dia de ontem deve ter sido um sonho, não acham? — disse
mais tarde o moscardo com tristeza.
— Ontem também me aconteceu uma coisa idêntica — disse a
abelha. — Foi no prado dos trevos. Eu e umas colegas voávamos de um lado para o
outro à procura de néctar, quando apareceu um parzinho de namorados. Estávamos
para nos ir embora, mas os jovens perguntaram delicadamente se podiam sentar-se
algum tempo à nossa beira. “O prado é de todos”, respondemos, e eles
sentaram-se na erva ao nosso lado e nós pudemos prosseguir com o nosso trabalho
sem sermos incomodadas. Para dizer a verdade, foi divertido andar a zumbir em
volta deles e mais tarde ainda nos agradeceram pelo belo concerto. O que dizem
vocês a isto?
— Alguém que entenda os humanos! — resmungou um moscardo. —
A nós, quase nos estripavam por medo. Mas ontem, um homem levou-me num jornal
para fora de casa, onde eu andava baralhado. E ainda me disse “Passa bem!”.
Esquisito, não?
—É esquisito!
E cada animalzinho tinha uma história semelhante para contar
sobre o dia anterior.
Elke Bräunling
Da wird dia Angst ganz klein
Limburg, Lahn Verlag, 1998
(Tradução e adaptação)
quarta-feira, 8 de abril de 2020
História do dia: A carpa
Embora fosse um camponês
trabalhador, a colheita foi muito pobre naquele ano devido à ausência das
chuvas, a ponto de mal ter para alimentar a mulher e os filhos. Em situação
desesperada, não teve outro remédio senão recorrer a um abastado nobre para lhe
suplicar:
— Senhor, fie-me alguns grãos
para não morrermos à fome.
— Está bem — respondeu o
poderoso. — Vou dar-te bem mais do que aquilo que me pedes: vou emprestar-te
várias moedas de ouro, mas terás de esperar uns meses até que faça a coleta dos
impostos, está bem?
— Quero contar-lhe uma coisa,
senhor — disse o camponês. — Quando vinha para lhe suplicar ajuda, ouvi uma voz
angustiada que pedia socorro. Ao acudir ao chamamento, vi que se tratava de uma
carpa que se encontrava numa terrível situação. Estava caída no meio do
poeirento caminho, sob um sol abrasador e dizia:
— Sou do rio e estou a morrer
neste pó. Por favor, não tens um balde de água onde eu possa mergulhar?
Respondi-lhe:
— Está bem, está bem. Vou fazer
mais do que isso: vou trazer-te uma bacia muito grande, mas terás de esperar
até que vá para Sul e traga água do rio que lá existe, está bem?
Então a carpa, à beira da morte,
disse-me:
— Fazes promessas, mas não me
facultas a única coisa que pode salvar-me a vida: um balde de água. Quando
trouxeres a bacia, já terei morrido.
Muitas vezes não só não somos
generosos como pretendemos justificar a nossa ausência de generosidade
servindo-nos de pretextos ou de falsas justificações. A avareza torna-nos
insensíveis, endurece-nos o coração e faz-nos viver de costas voltadas para as
necessidades alheias, esquecendo-nos de ser solidários.
O antídoto para a avareza é a
generosidade, uma das qualidades mais belas do ser humano, que é preciso
aprender a cultivar. É também fruto da compaixão e de uma perceção correta das
coisas. A compaixão consiste em compreendermos o sofrimento alheio, mas,
também, em usarmos os meios que temos ao nosso alcance para o prevenir ou minorar.
Ramiro Calle
Os melhores contos
espirituais do Oriente
Esfera dos Livros,
Lisboa, 2010
terça-feira, 7 de abril de 2020
História do Dia: A Felicidade está nas Pequenas Coisas
Desfruta das pequenas coisas.
Um dia podem tornar-se as maiores da tua vida.
Robert Brault
Era um daqueles dias de múltiplos afazeres e eu já estava atrasada nas tarefas de casa.
Há séculos que não ia ao supermercado e faltava quase tudo na despensa. A roupa para lavar empilhava-se, cada vez mais, no cesto, e a casa tinha ultrapassado os meus, bastante flexíveis, padrões de limpeza. Como se isto não bastasse, tinha de entregar dois artigos e precisava, por isso, de passar algum tempo diante do computador.
Os meus quatro filhos não tinham aulas naquele dia. Encantados por estar em casa, perguntavam-me, constantemente, o que iríamos fazer. Mas eu sabia que os meus planos os iam desapontar. Nenhum deles era divertido e especial.
Quando acordaram, deram-se conta de que não tinham as taças de cereais prontas, porque não havia leite. Só cereais secos… e eles não gostavam muito… Também não havia ovos ou pão, o que reduzia em muito as opções do pequeno-almoço. Bem procurei no congelador uma embalagem de waffles congeladas, mas não tive sorte. Acabei por encontrar um pacote de bolachas de manteiga. Reguei-as com açúcar e canela, pu-las no forno, e dei-as aos miúdos.
— Lamento não poder oferecer-vos algo de melhor, mas não tenho tempo para ir às compras.
Nem sequer responderam, demasiado ocupados que estavam a enfiar os rolinhos de canela improvisados na boca.
Depois do pequeno-almoço, pus uma máquina de roupa a lavar e sentei-me ao computador. A minha filha mais nova, Julia, veio ter comigo com uma cara de quem está prestes a chorar.
— Ó mãe, nós achávamos que hoje nos íamos divertir. É o nosso dia de folga!
— Sei que é o vosso dia de folga, mas não é o meu — respondi. — Tenho trabalho para fazer.
— Não podes brincar comigo aos cabeleireiros? — pediu.
Suspirei. Não tinha tempo para brincar, porque tinha trabalho urgente para fazer.
Foi então que tive uma ideia:
— E se brincássemos enquanto eu trabalho? — propus-lhe.
E foi assim que escrevi um artigo, enquanto ela me pintava as unhas dos pés.
O meu filho mais velho, Austin, ofereceu-se para fazer o almoço para eu poder continuar a trabalhar. Os mais novos ficaram encantados com as escolhas dele. Não que fossem dignas da pirâmide alimentar, mas eles gostaram e pude, assim, acabar o meu segundo artigo.
Pouco antes do almoço, fomos todos ao supermercado. O Austin empurrou o carro, enquanto os irmãos pegavam em cupões espalhados pela loja. Consegui comprar o que queria, mais alguns produtos extra selecionados pelos meus acompanhantes.
De volta a casa, os miúdos resolveram “brincar aos supermercados” com os cupões que tinham arranjado. Alinharam as latas nos balcões da cozinha e as refeições ligeiras na ilha central, e fingiram que estavam a vender o que tínhamos comprado.
Durante o resto da tarde, limpei a casa, dobrei a roupa, e comecei a fazer o jantar.
Os miúdos só interromperam o jogo com a chegada do pai.
Quando o meu marido, Eric, me viu, perguntou, com um sorriso rasgado:
— Então, que tal a folga de hoje?
Quando comecei a dizer que não tínhamos feito nada de especial, a Julia interrompeu-me:
— Pai, viste as unhas da mãe? Ela deixou-me sentar debaixo da mesa do computador e eu pintei-as enquanto ela escrevia. Foi tão divertido!
O Austin continuou:
— Hoje comemos o melhor pequeno-almoço de sempre! Já fizeste aquelas bolachas para o pai? Eram fantásticas!
O Eric olhou para mim, com um ar interrogador. Encolhi os ombros. Os meus filhos do meio, o Jordan e a Lea, revezaram-se a dizer ao pai que tinham jogado com os cupões e que o Austin tinha feito um almoço especial.
— Foi um dia ótimo, pai! Foi espetacular!
Olhei para as caras deles, cheias de entusiasmo. Entusiasmo com um pequeno-almoço a fingir, um almoço improvisado, cupões de um supermercado, e umas unhas pintadas.
— Tiveram mesmo um dia bom? Não ficaram desapontados por não termos feito algo de especial?
O Austin encolheu os ombros e disse:
— A vida é tão divertida quanto a fizermos!
Concordei com um aceno. A felicidade está mais na atitude do que nas circunstâncias. Abracei os meus filhos e agradeci-lhes por me lembrarem que devia procurar a felicidade nas pequenas coisas. A Julia sorriu e disse:
— São as pequenas coisas que nos fazem mais felizes, não são, mãe?
Os meus filhos são mesmo inteligentes…
Diane Stark
segunda-feira, 6 de abril de 2020
História do Dia: Cenoura, ovo ou café
A filha queixava-se ao pai acerca da sua vida e de como tudo lhe era tão difícil. Não sabia como fazer para seguir em frente e acreditava que acabaria por desistir, dando-se por vencida perante as dificuldades. Estava cansada de lutar. Parecia-lhe que sempre que solucionava um problema logo aparecia outro.
O seu pai, que era chef de cozinha, levou-a ao seu local de trabalho. Uma vez lá, encheu três tachos com água e colocou-os sobre lume forte. Dali a nada, a água fervia nos três tachos. Num deles, deitou cenouras, noutro ovos e, no último, grãos de café. Deixou que tudo fervesse sem dizer palavra. A filha esperou, impaciente, perguntando-se o que estaria o pai a fazer.
Dali a vinte minutos o pai desligou os discos do fogão. Retirou as cenouras e colocou-as num recipiente. Retirou os ovos e colocou-os noutro recipiente. Coou o café e deitou-o para um terceiro recipiente. Olhou para a filha e perguntou-lhe:
— O que vês aqui?
Ela prontamente respondeu:
— Cenouras, ovos e café!
Pediu-lhe então que se aproximasse e tocasse nas cenouras. Ela assim fez, notando que estavam muito moles.
A seguir, pediu-lhe que pegasse num dos ovos e o partisse. Ela pegou no ovo e retirou-lhe a casca para encontrar no interior um ovo bastante duro.
Finalmente, pediu-lhe que provasse o café. Ela sorriu enquanto saboreava o rico aroma do café acabado de fazer.
Humildemente, a filha acabou por perguntar:
— Pai, o que significa tudo isto?
Então, ele explicou-lhe que os três ingredientes haviam sido submetidos à mesma adversidade, água a ferver, mas tinham reagido de formas distintas.
A cenoura chegou à água sendo forte e dura. No entanto, depois de passar pela água a ferver ficara débil, desfazendo-se com facilidade.
O ovo tinha chegado à água sendo frágil. A sua casca fina protegia o interior líquido. Mas, depois de estar em água a ferver, o seu interior tinha endurecido.
Em contrapartida, os grãos de café eram únicos na sua reação. Depois de entrarem na água a ferver tinham mudado a água.
— E tu qual destes ingredientes és? — perguntou-lhe o pai? — Quando a adversidade bate à tua porta como reages? És uma cenoura, um ovo ou um grão de café?
E eu pergunto-te a ti? O que fazes perante a adversidade? És como a cenoura que parece forte, mas quando é tocada pela adversidade e pela dor descobre que essa fortaleza é só aparente?
Atuas como o ovo, que começa com um coração maleável, possui um espírito fluido, mas depois de enfrentar uma morte, uma separação, um divórcio ou um despedimento se torna duro e rígido?
Ou és como o café? O café altera a água a ferver, o elemento que causa dor. Quando a água atinge o ponto de ebulição, o café alcança o seu melhor sabor.
Como manejas a adversidade? Como uma cenoura, um ovo ou um grão de café?
Anónimo
(Tradução e adaptação)
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2020/03/21/cenoura-ovo-ou-cafe/
sexta-feira, 3 de abril de 2020
História do Dia: O troll que não quis ficar em casa
No país dos contos de fadas, andava tudo em alvoroço. A bruxa Canhestra,
desastrada por natureza, tinha-se enganado numa das suas poções mágicas e
mandara a cabana pelos ares. Sobre todo o território, pairava uma névoa
esverdeada e pestilenta, que provocava reacções esquisitas em quem a inalava. A
começar pela própria bruxa Canhestra, que ficou transformada numa galinha
saltitona e passou o resto dos seus dias a saltar à corda e a pôr ovos de
borracha.
O centauro Serafim, carteiro de profissão, que ia a passar naquele momento,
ganhou um apetite voraz por papel e comeu as cartas todas que tinha para
distribuir. A seguir, invadiu a biblioteca e começou a devorar enciclopédias
mágicas e romances de encantar. Tiveram de correr com ele à vassourada, senão
não tinha restado qualquer livro nas estantes, o que seria uma tragédia.
A Ratinha Vaidosa, que vinha a chegar das compras à sua casa-cogumelo,
desatou a cantar ópera em altos berros, com a sua vozinha desafinada. O que fez
com que os vizinhos, ensurdecidos pela cantoria, a tivessem de amordaçar
violentamente.
Por todo o lado, havia seres atingidos pela tal névoa mágica, manifestando
os mais estranhos sintomas.
Depressa os habitantes do país dos contos de fadas perceberam a origem
destas perturbações e protegeram a boca e o nariz com máscaras especiais, à
prova de feitiços gasosos. Só que não as havia para todos...
O ministro do reino, um cavalo alado muito sábio, decretou então:
- Enquanto a névoa mágica resultante do acidente da Canhestra não se
dissipar, toda a gente deve ficar em casa. Fechem portas e janelas e evitem
meter o nariz de fora. Já temos uma equipa de fadas, bruxas e feiticeiros a
estudar o assunto e a desenvolver uma poção de desencantamento. Até que o
problema se resolva, e não sabemos quando, ninguém sai, ouviram?
Os anões, as fadas, as ninfas, os faunos e os restantes seres que habitam o
país dos contos de fadas, todos acataram as ordens do ministro do reino.
Todos, menos um, o troll Arrebentaportas, que era sempre do contra.
- Vou agora ficar em casa... Tenho mais que fazer. Vou inventar uma
máscara à minha maneira e saio quando me apetecer. Tanto mais que, aqui por
estes lados, já quase se não vê qualquer névoa.
E se assim o pensou, melhor o fez. Enrolou à volta da boca e do nariz um
trapo ensopado numa mistela que usava para desentupir a sanita e saiu. Só que
não chegou muito longe. A pouco e pouco, os restos de névoa pestilenta que por
ali pairavam atravessaram o tecido da máscara improvisada e o resultado não foi
bonito de se ver. O troll Arrebentaportas foi transformado numa batata podre
com soluços. E o problema maior é que, sempre que soluça, metamorfoseia-se numa
coisa diferente: uma panela de pressão, um chinelo roto, um penico, um ovo
escalfado e uma quantidade de outras coisas inesperadas. É bem feito para ele!
E vocês, não esqueçam, enquanto o problema persistir, NÃO SAIAM DE CASA!
Carlos Alberto Silva
quinta-feira, 2 de abril de 2020
História do Dia: Fome de palavras
Na minha terra, os arbustos florescem em finais de abril, início de maio, e logo se enchem de casulos de borboletas. Parecem bolas de algodão ou pedacinhos de algodão doce, mas as crisálidas que ali de desenvolvem devoram folha após folha, até os arbustos ficarem despidos. Quando as borboletas saem destes casulos, iniciam os seus voos delicados, mas os arbustos não são destruídos. E quando chega o Verão, florescem novamente, e assim acontece ano após ano.
É isto que sucede ao escritor e ao poeta. São devorados, esvaziados pelas suas histórias ou poemas: quando estes já estão escritos, saem a voar para acabar nos livros e poderem encontrar os seus ouvintes ou leitores. E isto repete-se uma vez, e outra vez.
O que acontece aos poemas e às histórias? Conheço um menino que foi operado aos olhos. Depois da cirurgia, teve de ficar duas semanas deitado sobre o lado direito. Durante um mês, não pode ler, não pode ler mesmo nada. Quando ao fim de um mês e meio pegou finalmente num livro, parecia que o livro era uma tigela onde apanhava palavras à colher. Como se as comesse. Como se verdadeiramente as comesse.
Conheço uma rapariga que cresceu e é agora professora. Disse-me: coitadas das crianças a quem os pais não leem livros.
As palavras nos poemas e nos contos são comida. Não são comida para o corpo: ninguém pode encher o estômago com elas. São comida para o espírito e para a alma.
Quando temos fome e sede, o estômago encolhe-se e a boca seca. Procuramos um pedaço de pão, um prato de arroz, de milho, um peixe ou
uma banana. Quanto mais fome se tem, mais a atenção diminui, e já não se vê mais nada para lá do pedaço de comida que nos saciaria.
A fome de palavras não se manifesta deste modo, mas adquire a forma da melancolia, do esquecimento, da arrogância. As pessoas que sofrem este tipo de fome não percebem que as suas almas tremem de frio e lhes passam ao lado. Uma parte do mundo foge-lhes das mãos sem que disso tenham consciência.
Esta fome pode ser saciada com contos e poemas.
Mas haverá esperança para aqueles que nunca se alimentaram de palavras para satisfazer a fome?
Sim, há. O menino lê quase todos os dias. A menina que já cresceu e se tornou professora lê histórias aos seus alunos. Todas as sextas. Todas as semanas. Se um dia se esquecer, os alunos vão lembrá-la.
E quanto ao escritor e ao poeta? Quando chegar o Verão, ficarão novamente verdes. E mais uma vez serão comidos pelas histórias e pelos poemas que escrevem, que voarão em todas as direções, como borboletas. Uma vez, e ainda outra vez.
Peter Svetina (n. 1970, Ljubljana, Eslovénia)
Tradução: Maria Carlos Loureir
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Passatempo: 10 minutos a Ler
Fotografa-te a ler. Fotografa alguém da tua família a ler. EM CASA, claro. Sem mostrar rostos nem marcas.
Publica a foto na tua galeria do Instagram, devendo o perfil da conta ser público.
Identifica o teu post com os hashtags #10minutosaler #PNL2027 @pnl2027
Passatempo do Instagram #10minutosaler
– de 30 de março ao final do ano letivo
Regulamento
1. Como participar
1.1. Tirar uma fotografia do (a) próprio (a) ou de alguém a ler em casa, sem mostrar rostos ou marcas.
1.2. Publicar a foto na sua galeria do Instagram, devendo o perfil da conta ser público.
1.3. Identificá-la com os hashtags #10minutosaler e #pnl2027.
1.4. Cada participante pode candidatar-se com mais do que uma fotografia.
2. Os participantes garantem que as fotos submetidas são da sua autoria, inéditas, não pertencendo nem violando direitos de terceiros, designadamente de imagem e de propriedade intelectual.
3. Ao longo do período do passatempo, o PNL2027 irá partilhar no seu Instagram as fotos publicadas. A fotografia com mais “Gostos”, em cada dia, será apurada para uma finalíssima, a ocorrer no dia 30 de junho.
4. Neste dia, identificar-se-á, de entre as 5 fotografias finalistas, a que tem mais “Gostos” e que será premiada.
5. O(a) autor(a) da fotografia vencedora deverá enviar para pnl@pnl2027.gov.pt os seus contactos para envio do prémio.
6. O prémio a atribuir é constituído por livros e acessórios tecnológicos.
7. Estarão automaticamente desclassificados os participantes que partilhem fotografias que tenham carácter ofensivo, discriminatório ou inadequado.
Boa sorte!
Mais informações em http://www.pnl2027.gov.pt/np4/home
História do Dia: Tita, Gosto de Ti
Era uma vez uma ratinha chamada
Tita que estava sempre a fazer perguntas.
Felizmente, tinha uma Avozinha
que estava sempre a dar respostas e por isso entendiam-se lindamente.
– Avozinha – perguntou Tita um
dia – o que é o amor?
– O amor? – riu-se a Avozinha. –
Oh, isso é fácil, Tita! Vem dar um passeio comigo e vais perceber logo o que é!
A Avozinha e a Tita foram pela
horta fora onde o Avô estava a tratar da terra.
– Chiu! – murmurou o Avô, e
apontou em direcção a uma mãe-
-carriça que estava a ensinar os filhotes a voar.
-carriça que estava a ensinar os filhotes a voar.
– Tal como tu e
a Avozinha me ensinam a fazer coisas! – sussurrou Tita.
Depois do portão da horta,
começava o bosque. Pouco depois de lá chegar, a Tita viu uma mãe-esquilo a
partilhar com os seus filhotes algumas das bolotas que tinha escondido num
buraco durante o Outono.
– Tal como a Avozinha partilha os
seus cozinhados comigo! – exclamou Tita.
Depois de terem passado pelo
bosque, chegaram ao prado. A Tita gostava de lá ir, porque podia ver os coelhos
fora das tocas, todos atarefados, de um lado para o outro. Mas, hoje, havia um
coelhinho que tinha magoado a patinha numa pedra afiada e a mãe-coelho estava
deitada à beira dele, a fazer-lhe companhia até ele melhorar.
– Tal como te sentas à cabeceira
da minha cama, se eu estiver doente – disse Tita.
Havia um campo perto do prado e
Tita viu um cordeirinho que andava a correr de um lado para o outro, cheio de
medo de um cão-pastor. Mas, nesse momento, uma mãe-ovelha saiu do rebanho muito
apressada e aproximou-se do cordeirinho, que, quando se pôs encostadinho a ela,
ficou muito mais sossegado.
– Vês – sorriu a Avozinha –
aquela mãe ovelha estava a dizer ao cordeirinho para não ter medo do
cão-pastor. Ele está lá para tomar conta deles.
– Tal como tu me dizes para não
ter medo, quando estou assustada – disse Tita.
Depois de atravessarem o campo, a
Avozinha e a Tita chegaram ao lago dos patos, onde uma ninhada de
patinhos fazia “quá, quá” e “ploc, ploc”, numa correria atrás da mãe.
– Aqueles patinhos, um dia, vão
crescer, não vão? – perguntou Tita. – Achas que a mamã deles os vai esquecer,
quando tiver de tomar conta de outros filhotes?
– Não! – disse a Avozinha. – Ela
nunca esquecerá nenhum deles.
– Tal como tu nunca me
esquecerás! – disse Tita.
Agora, já estava a ficar escuro
e, quando Tita e a Avozinha deram meia-volta para regressar a casa, passaram
por um celeiro. Ouviram alguém a piar lá dentro e a Tita foi à porta, dar uma
espreitadela. Então, ela viu a mãe coruja a dar muitos beijinhos repenicados
aos seus pequenotes, antes de sair, durante a noite.
– Tal como tu me dás um beijinho
de boa noite – disse baixinho Tita.
– Sim – concordou a Avozinha. –
Embora para as corujas seja um beijo de bom-dia!
E as duas desataram a rir.
Como estava noite, Tita e a
Avozinha apressaram-se a chegar a casa e viram o Avô a acenar ao pé do portão.
– Avozinha! – disse Tita. – As
coisas todas que vi hoje, se as pusermos todas juntas, ficamos com amor?
– Sabes que mais – disse a
Avozinha – acho que tens toda a razão.
Naquela noite, Tita esteve à
janela com a Avozinha, a pensar em tudo o que tinha visto.
– Foi um dia muito agradável –
disse Tita baixinho. – Gosto muito de ti, Avozinha, e do Avô também.
– E eu gosto muito de ti, Tita –
disse a Avozinha.
E assim, Tita deu um beijo de
boa-noite à Avozinha e foi pé ante pé para a caminha.
Dugald Steer
Tita, gosto de ti
Porto, Ambar, 2004
terça-feira, 31 de março de 2020
História do Dia: Pauzinhos de marfim
Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de
um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao
conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com
ele e explicou-lhe:
— Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de
pauzinhos pode levar-te à perdição!
O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a
sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:
— Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que
não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e
tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem
iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E
quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se
com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.
Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos.
Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos
nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A
desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e
desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no
muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção.
O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a
ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.
Conto do filósofo chinês Han Fei,
oito séculos antes da nossa era.
segunda-feira, 30 de março de 2020
Reflexão do Dia: A Primavera está a chegar...
É verdade que há medo. É verdade que há isolamento. É
verdade que há açambarcamento. É verdade que há doença. É verdade que há mesmo
morte.
Mas há quem diga que, em Wuhan, depois de tantos anos de
ruído, é possível, de novo, ouvir os pássaros.
Há quem diga que, após algumas semanas de silêncio, o céu já
não está tão poluído e voltou a ser azul e nítido.
Há quem diga que, nas ruas de Assis, as pessoas cantam umas
para as outras através das praças desertas e mantêm as janelas abertas, para
que os que estão sozinhos possam ouvir sons de vida em família.
Há quem diga que um hotel do oeste da Irlanda está a
confecionar e entregar refeição gratuitas às pessoas que não podem sair de
casa.
Hoje mesmo, uma jovem minha conhecida está a distribuir
panfletos com o seu número de telefone pela vizinhança, para que os idosos
possam ter com quem falar.
Hoje mesmo, igrejas, sinagogas, mesquitas e templos
preparam-se para acolher os sem-abrigo, os doentes e os exaustos.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a parar e a
refletir.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a ver os
vizinhos de forma diferente.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a acordar para
uma nova realidade.
Para o facto de sermos todos tão relevantes.
Para o facto de termos todos tão pouco controlo.
Para aquilo que realmente importa.
Para o Amor.
E, por isso, rezamos e lembramos que, apesar de haver medo,
não tem de haver ódio.
Que, apesar de haver isolamento, não tem de haver solidão.
Que, apesar de haver açambarcamento, não tem de haver
mesquinhez.
Que, apesar de haver doença, não tem de haver almas doentes.
Que, apesar de haver morte, o amor pode sempre renascer.
Acordemos para as escolhas que fazemos em relação à vida que
levamos hoje.
Ouçamos, por detrás dos ruídos incessantes do nosso pânico,
o canto dos pássaros.
O céu está a clarear, a primavera está a chegar, e o Amor
continua a abraçar-nos a todos.
Abramos as janelas da nossa alma e, mesmo que não possamos
tocar-nos, cantemos uns para os outros.
Irmão Richard Hendrick
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2020/03/28/a-primavera-esta-a-chegar/#more-5700
sábado, 28 de março de 2020
História do dia: Obrigada por não me empurrares
As minhas pernas andavam para a
frente e para trás. Embora estivesse a usar toda a força que tinha para que o
meu baloiço chegasse ao céu, estava muito longe de o conseguir.
— Mãe, podes empurrar-me outra
vez?
— Não, filha. Eu sei que
consegues chegar mais alto. Concentra-te e continua a usar as tuas pernas.
Olhei em volta e vi todas as
outras mães e pais do parque a empurrar os filhos, sob o calor escaldante de
junho. Perguntei-me por que razão a minha mãe não fazia o mesmo. Não que lho
fosse perguntar. Temia bem aquele olhar que os pais lançam aos filhos, quando
acham que a sua autoridade está a ser questionada.
— Está bem — resmunguei.
Embora eu não acreditasse na
força das minhas pernas, a minha mãe parecia ter muita confiança nelas.
Coloquei as mãos em volta das correntes de metal, pus-me em posição, balancei
para trás e lá continuei.
— Continua a balançar as pernas,
filha! Tu consegues! — encorajou-me ela.
Parecia querer o meu sucesso mais
do que eu mesma. Como não queria desapontá-‑la, lá me esforcei. Acabei por
chegar tão perto do céu que os meus pés já tocavam as nuvens. Sorri abertamente
ao ver que tinha conseguido o impossível. Tinha conseguido voar.
Saltei do baloiço e enterrei os
pés na areia quente.
— Viste o que eu fiz, mãe? Viste?
— Claro que vi. Estive sempre a
olhar para ti.
Naquela altura, não compreendia
por que motivo a minha mãe queria que eu fizesse tudo sozinha. Se eu não
conseguia balançar mais alto, porque não me empurrava ela?
Ao longo dos anos, a minha mãe
deu-me o maior presente que um pai ou mãe podem dar aos filhos: um amor
exigente, liberdade e independência. Ensinou-me a enfrentar os desafios
sozinha. Preparou-me para o meu futuro. E mostrou sempre muita empatia e amor
por mim, ao mesmo que tempo que fazia de minha professora e melhor amiga, e
ainda de pai e de mãe.
De cada vez que ouvia as palavras
“Não consigo”, sorria, porque sabia que eu conseguia. Se ela tivesse empurrado
o meu baloiço, eu nunca teria saltado dele sentindo-‑me tão maravilhosamente
capaz.
Christy Barge
sexta-feira, 27 de março de 2020
quinta-feira, 26 de março de 2020
História do Dia: Uma questão de lápis
O telefone tocou. Era a minha
irmã a dizer:
— Pensei que gostarias de saber
que voltei a contar a tua história dos lápis.
A minha irmã é diretora da
biblioteca audiovisual de uma escola básica. De vez em quando, conta aos alunos
que visitam a biblioteca um episódio que se passou comigo em criança.
Há cerca de 40 anos, estava eu
sentada na minha sala de aula quando alguém, através do altifalante da sala, me
chamou ao gabinete do diretor. O gabinete do DIRETOR! Enquanto me dirigia para
lá, a minha curta vida de seis anos desenrolou-se qual filme diante dos meus
olhos. O que teria eu feito?
Era uma criança tímida e evitava
dar nas vistas. Não gostava nada que reparassem em mim ou que me destacassem do
grupo. Para mim, ser chamada ao gabinete do diretor era o meu pior pesadelo
tornado realidade. Quando lá cheguei, a secretária dele disse:
— Diane, o diretor ainda não pode
receber-te. Senta-te uns minutos, por favor.
Sentei-me num sofá de couro e
afundei-me o mais que pude. Até rezei para que as almofadas me engolissem.
Pouco depois, o intercomunicador
emitiu um ruído e a secretária sorriu:
— Podes entrar agora.
Empurrei a pesada porta de
carvalho. A situação ainda era pior do que eu imaginava porque os meus pais
estavam sentados diante da secretária do diretor. Só anos mais tarde é que
soube porque tinham sido chamados.
O meu pai dirigiu-se a mim com
uma resma de desenhos meus.
— Por que razão usas apenas lápis
preto para desenhar? — perguntou.
Fiquei sem palavras e encolhi os
ombros.
— Mostra-me a tua secretária —
pediu o meu pai.
Regressámos à sala de aula. Como
era intervalo, todos os meus colegas estavam no recreio. Apontei, nervosa, para
a minha secretária. O meu pai pegou na minha caixa de lápis e esvaziou o
conteúdo na mão. Só lá havia um cotinho de lápis preto. Admirado, o meu pai
perguntou:
— Onde está o resto dos teus
lápis?
Expliquei-lhe que os tinha
passado aos meus colegas. Emprestado, tal como os meus pais me haviam ensinado.
O meu pai suspirou de alívio:
— Emprestaste-os.
Assenti com a cabeça. Olhei para
o meu pai e para o diretor. Ambos tinham a cara vermelha. O diretor murmurou
qualquer coisa sobre eu ir para o recreio brincar. Acenei aos meus pais e lá
fui. A minha mãe retribuiu o meu gesto, mas o meu pai estava demasiado
concentrado a olhar para o diretor. Anos mais tarde soube que a vermelhidão do
rosto do meu pai se devia à irritação e
que a vermelhidão do rosto do diretor se devia ao embaraço. Tendo visto os meus
desenhos todos pintados a preto, o diretor assumira que eu tinha problemas
emocionais graves. A minha escolha de cor dever-se-ia a uma “natureza sombria e
deprimida.” Assim, chamara os meus pais para discutir o meu “problema” e
sugerir-lhes que eu tivesse algum tipo de acompanhamento psicológico.
Eu tivera demasiado medo para
admitir que só tinha um lápis e era demasiado tímida para pedir os outros de
volta. As outras pessoas assumiram o pior, porque eu não tinha feito valer os
meus direitos.
Nessa mesma noite, o meu pai
falou comigo acerca da diferença entre emprestar e dar. Ofereceu-me uma caixa
nova de lápis e disse:
— Estes lápis são teus. Não quero
que os dês, compreendes?
Agarrei bem a caixa e respondi:
— Sim, papá.
A minha irmã ainda usa esta
história para alertar os alunos para não terem medo de fazer perguntas, para
não terem medo de verbalizar o que pensam e sentem. Caso contrário, as pessoas
podem tirar as conclusões erradas e ocorrer-lhes o que ocorreu com a irmã dela
quando tinha a idade deles. E tudo por causa de um lápis de cor preta…
Diane M. Miller
(Tradução e adaptação)
quarta-feira, 25 de março de 2020
História do Dia: O monstro minúsculo que queria ser rei

Num
lugar muito longe daqui, havia um monstro minúsculo, tão pequeno, tão pequeno
que ninguém conseguia vê-lo à vista desarmada. No entanto, tinha muito mau
feitio e uma enorme ambição: tornar-se num gigante e ser rei absoluto. Como tinha
nascido com uma coroa na cabeça, achava que tinha direito a dominar todo o
planeta.
Um
dia, foi consultar uma bruxa malvada muito poderosa e disse-lhe:
-
Ouve lá, ó bruxa maléfica, estou decidido a tornar-me num gigante e a ser o rei
absoluto deste planeta. Se me ajudares a consegui-lo, recompensar-te-ei e
nomear-te-ei minha Primeira Conselheira.
A
princípio, a bruxa achou que aquele monstro minúsculo não devia estar bom da
cabeça. Ainda por cima, manifestava uma irritante falta de respeito. Chegou mesmo
a pensar lançar-lhe um feitiço que o transformaria num sapo ou,
como era tão pequeno, num grão de pó. Mas depois reconsiderou, pensando que
aquilo até podia ser divertido e respondeu:
-
Combinado! Se fizeres tudo o que eu disser, ajudo-te a conseguir o que
pretendes.
Virou
costas e foi para junto do seu caldeirão, criar um feitiço especial.
-
Já preparei um feitiço que te permitirá realizar o teu desejo. Mas, para isso,
há algumas condições.
-
Ai sim? - disse o monstro minúsculo - Que condições são essas?
-
Primeiro, tens de prometer que farás tudo o que eu disser, como eu disser e
quando eu disser.
-
Está bem, prometo! - resmungou o monstro minúsculo, com maus modos.
A
bruxa explicou então:
-
Para poderes ser o rei do mundo, tens de subjugar os humanos, que são quem,
neste momento, domina o planeta. Vais entrar dentro deles e submetê-los à tua
vontade. No entanto, tens um tempo limitado para habitar o corpo de cada um,
antes que te consigam expulsar.
-
De acordo - disse o monstro minúsculo. - E que mais?
-
Só podes ir de humano em humano quando eles estiverem em contacto entre si.
Aproveita bem cada aperto de mão, cada abraço e cada beijo para passar para o
próximo ou então acaba-se o tempo e não poderás realizar o teu desejo.
-
Certo. E que mais?
-
Quando estiveres dentro de cada um, faz o que puderes para dominar o corpo que
invadiste. Obriga-os a tossir para tornar mais fácil e rápida a tua acção. E
olha que não vai ser fácil, sobretudo com os mais jovens. Por isso, aproveita
especialmente os mais velhos, em particular os que já estiverem doentes.
-
Percebi. Não me parece nada difícil. Vai ser canja, hehehehe! Já me estou a
ver: enorme, do tamanho do mundo, com o planeta todo às minhas ordens.
-
Não te entusiasmes demasiado - disse a bruxa. - Ainda temos muito que fazer.
Agora, salta para dentro do meu nariz e vamos ao trabalho!
O
monstro minúsculo saltou para dentro do nariz da bruxa e começou a
multiplicar-se. Esta disfarçou-se de velhinha simpática e foi até ao mercado,
que àquela hora estava a abarrotar de gente. Na mão, levava uma cesta cheia de
maçãs, vermelhinhas e sumarentas, para cima das quais havia tossido.
-
Olh'ás maçãs vermelhinhas e sumarentas!!! - apregoava ela. - Quem quer comprar
as minhas maçãs maduras e deliciosas?
Ao
mesmo tempo, ia cirandando entre as bancas do mercado e tossindo para cima das
pessoas e das mercadorias e tocando em tudo com as mãos sujas.
Constatando
que poucos queriam comprar as maçãs, começou a oferecê-las:
-
Olh'ás maçãs vermelhinhas e sumarentas!!! Ó freguês, pague uma e leve três!
A
pouco e pouco, o monstro minúsculo começou a entrar pelos narizes e bocas
das pessoas que por ali andavam, sem que estas dessem por isso. Quando
encontravam algum amigo ou conhecido, as pessoas cumprimentavam-se
efusivamente, ajudando assim a passar o monstro minúsculo que as contaminava.
Dias
depois, começaram a surgir os primeiros sintomas da invasão: algumas pessoas
sentiram-se muito cansadas, com febre e com tosse. As mais vulneráveis tiveram
que ser hospitalizadas e, a cada dia que passava, apareciam mais
casos. Algumas pessoas não resistiam...
Na
sua cabana, a bruxa malvada gargalhava, a cada má notícia que ouvia sobre o
assunto. Por seu lado, o monstro minúsculo andava nas suas sete quintas e
crescia de dia para dia. Começou por ter sob o seu domínio uma cidade e depois
outra e outra.
Quando
já controlava o país inteiro, espalhou-se pelos restantes países. Os
estrangeiros que estavam de visita levavam-no na bagagem para as suas terras e
ajudavam, sem saber, à sua propagação.
O
monstro minúsculo começou então a lançar na cabeça das pessoas a semente do
medo. Não tardou que o pânico alastrasse e estas começaram a acumular comida e
outros bens essenciais. Alguns até compraram armas. Mas esta era uma guerra
invisível, porque ninguém sabia como combater o monstro minúsculo.
Os
governantes dos países atingidos chamaram os feiticeiros oficiais, mas estes
não sabiam como resolver o assunto. Chamaram então os cientistas e pediram-lhes
ajuda. Os cientistas estudaram o problema e procuraram uma cura para
a doença provocada pelo monstro minúsculo.
Descobriram
que este só podia crescer quando as pessoas estavam em contacto entre si. Que
se aproveitava de cada aperto de mão, cada abraço e cada beijo para passar de
uma para outra. Aconselharam então as pessoas a mudarem os seus hábitos e a ter
muito cuidado com a higiene. Aconselharam também que, os que pudessem, ficassem
em casa. Só saíam os que tinham mesmo de trabalhar para dar resposta às
necessidades do dia a dia.
Muitas
pessoas assim o fizeram. Custava muito ficar em casa em vez de ir trabalhar,
passear ou tratar dos assuntos habituais. Mas arranjaram maneiras de comunicar
e de se apoiarem umas às outras. Vinham para as janelas e para as varandas
cantar em conjunto, liam em voz alta, contavam histórias... E diziam umas
às outras:
-
Vamos ficar bem! Vamos ficar bem!
Assim,
o tempo de que o monstro minúsculo dispunha para concretizar o seu plano
maléfico ia-se esgotando. A pouco e pouco, voltava a ficar cada vez mais
pequeno, o que o deixava tremendamente furioso.
A bruxa malvada
acabou também por ser vítima do monstro minúsculo. Ele achava que a culpa do
seu falhanço era dela, zangou -se e, como acontece neste tipo de histórias,
empurrou-a para dentro do forno e a bruxa rebentou!
O
monstro minúsculo ainda anda por aí, mas acredito que as pessoas, que
somos todos nós, o iremos vencer. E, no final, vamos ficar bem!
Carlos Alberto Silva
Deite os seus filhos lendo, não vendo televisão
encurtador.com.br/ceqO5
Não há nada mais terapêutico e reconfortante do que conseguir que uma criança adormeça enquanto lemos um livro para ela, já que a experiência da escuta é fundamental também para o domínio de leitura. Além disso, através da nossa voz, levamos os nossos filhos a um universo de fantasia e de aventuras onde a mente encontra a calma e um convite para continuar sonhando, feliz, enquanto dorme.
Francesco Tonucci é um notável pedagogo italiano que baseou todos os seus trabalhos no estudo do desenvolvimento cognitivo das crianças pequenas. Para ele, desligar a televisão e ler um livro a uma criança é fundamental! Tal gesto, simples e contínuo, pode estar e está na génese do leitor atento de amanhã. Além disso, esse momento de leitura implica que aproximemos as crianças de valores/atitudes/emoções que as irão tornar mais livres, mais curiosas e, certamente, dignas herdeiras do legado que os bons livros nos deixam. Lembre-se sempre: as crianças transformam-se em grandes leitores ao colo dos pais, por isso, não duvide em ser o melhor exemplo para elas! Deixe que o(a) vejam mergulhar num mar de letras para que elas nadem num mar de sonhos…
É verdade que, às vezes, estamos tão cansados que é mais fácil juntar a família à frente da televisão… Mas pense que a infância dos seus filhos é muito breve, e que o melhor momento é “sempre é agora”. Aproveite cada segundo e cada instante, faça deles os seus cúmplices frente a um livro, deixe que o sono os vença no seu colo, enquanto chegam juntos ao final da história…MAIS TARDE ELES IRÃO AGRADECER…E MUITO!!
Um livro aberto é uma mente que fala e um coração que ouve
Um dos problemas que costumamos ter com as crianças no que se refere à leitura é que são muitas as que se aproximam dos livros por obrigação escolar e não por prazer. Isto não deveria ser assim: um bom leitor é aquele que se aproxima pela primeira vez desses oceanos de letras na sua infância…não por obrigação, mas por pura curiosidade e desafio. Por entusiasmo.
A leitura, tal como o amor, é o alimento ideal para cada um
Algo tão simples como dar à criança a liberdade na hora de escolher a sua leitura é algo que traz sempre bons resultados, mas é ainda melhor quando somos nós, pais, a funcionar como exemplos. De facto, para Tonucci, não há melhor brinquedo do que um livro e não existe maior legado do que favorecer a capacidade de escuta das crianças. Por isso é tão importante que elas nos ouçam ler…
Os benefícios da leitura relaxada
Graças a um trabalho conduzido pela “American Academy of Pediatrics”, foi feita uma descoberta importante: as crianças entre os 2 e 6 anos não deveriam estar expostas à televisão ou a dispositivos eletrónicos durante mais de uma hora por dia. Dos 7 aos 12 anos de idade, não devem exceder as 2 horas.
Segundo este estudo, a visão prolongada da televisão ou do computador pode desenvolver um déficit de atenção nos mais pequenos. E tudo isto porque o córtex frontal, ainda imaturo nas crianças, fica sobreativado com as ondas eletromagnéticas. Assim sendo, deixar que os nossos filhos adormeçam a ver televisão não é precisamente a coisa mais terapêutica… Apesar de nós mesmos fazermos isso com frequência!
Falamos de educação, pedagogia e antes de mais de saúde infantil. Por isso, antes de deixar que o sono os apanhe diante da TV ou do tablet, é preciso colocar em prática a boa arte da leitura relaxada. Não importa que os nossos filhos ainda não tenham adquirido a competência da leitura e da escrita ou que estejam apenas no início das primeiras conquistas. Sentarmo-nos com eles na cama e começar a ler para eles irá trazer um benefício enorme para o seu desenvolvimento neuronal e emocional.
A leitura relaxada aumenta o fluxo de sangue para o cérebro, traz bem-estar à criança, propicía uma calma muito gratificante, bem apropriada aos instantes finais de um dia muitas vezes stressante. Além disso, a área do cérebro que mais é estimulada no processo de “escuta” é a área pré-frontal, indispensável para desenvolver e potencializar muitos processos cognitivos nas crianças: a atenção, a imaginação e os raciocínios mais complexos.
Ler para as crianças uma história ou um pequeno livro com uma mensagem exemplar e conteúdos valorativos pode ainda potencializar a sua empatia, ajudando-a a desenvolver um maior respeito pelos seus semelhantes. Vale mesmo a pena!
A leitura relaxada, um vínculo de carinho entre pais, mães e filhos
Leia para os seus filhos sem pensar que está a perder o seu tempo ou que tem muitas coisas para fazer além disso. Permita que o tempo se detenha e agarre-os, deixe que a emoção do livro os envolva e que a sua voz cative o coração deles…
Concluindo, nenhum presente pode superar esses momentos de leitura partilhada nesses lugares inventados onde os sonhos, as aventuras e os mistérios alimentam a imaginação… enquanto a respiração se acalma lentamente, à medida que chega o sono…
A leitura relaxada, na última hora do dia, é um modo maravilhoso de educar as mentes das nossas crianças pois permite que o seu cérebro amadureça em equilíbrio e harmonia.
Os livros são, pois, um legado precioso que pais e filhos podem e devem partilhar, e nada, absolutamente nada deveria substituí-los, menos ainda a televisão ou as novas tecnologias.
https://amenteemaravilhosa.com.br/psicologia
julho 2016
(Adaptação)
terça-feira, 24 de março de 2020
História do Dia: Os quatro irmãos
Era uma vez quatro irmãos, quatro irmãos diferentes como são as horas do dia. Eram três irmãos e uma irmã.
O primeiro era forte e loiro como um rei antigo. Tinha um olhar luminoso e fiel que só de olhar aquecia o coração. Na sua mão direita, estendida, parecia segurar uma estranha varinha – um raio de sol.
O segundo irmão vinha vestido de castanho dourado. Com um fato de folhas douradas pela luz. E na sua mão direita, estendida, trazia um fruto maduro da cor do ouro velho quando lhe dá o Sol.
E o terceiro irmão era velho e triste. Os cabelos brancos tombavam-lhe pela pele de carneiro que lhe cobria o corpo enregelado.
Na sua mão direita, estendida, não trazia nada, nada. E a mão tremia de frio. Ou talvez a mão vazia, estremecendo, escondesse um maravilhoso segredo.
E, por fim, ela, a menina, de cabelos lisos dourados e olhos verdes da cor das ervas tenras dos campos, cantava, segurando na mão direita uma estranha e bela flor.
E os quatro irmãos, vindos pelos caminhos livres da terra, chegaram a uma montanha, a uma alta montanha perto do Sol.
Mas quem são estes quatro irmãos tão diferentes? Ides sabê-lo vós mesmos, Amigos.
Vieram estes quatro irmãos, uns atrás dos outros, devagarinho.
E, no azul do Céu, o Sol pareceu parar, perguntando assim: – Por aqui? Todos ao mesmo tempo? E o Sol pareceu parar, fitando mais a menina:
— Tu, e os teus irmãos?
E redondo e parado, todo estremeceu parecendo zangar-se:
— Por aqui? Por aqui? Todos ao mesmo tempo?
Então a menina falou:
— Hoje, Sol nosso Amigo, saímos de nossa casa, que não tem paredes, nem telhado, nem janelas, e viemos aqui à montanha pelos caminhos livres da terra, falando com quem encontramos.
E acrescentou como se se desculpasse:
— Nós nunca andamos juntos, mas hoje…
O Sol estremeceu ainda:
— Mas o que será feito de vossa Mãe sem que um de vós lhe assista? Três de vós têm de ficar em casa…
O irmão mais velho, o da mão estendida que parecia vazia, respondeu:
— A Nossa Mãe-Terra continua a viver. É por pouco tempo que nós andamos assim… Não vês, Sol? Ora escuta… Vê… Voam e cantam os pássaros, correm os rios, vão e vêm as ondas do
mar… Os homens trabalham, apitam as fábricas, revolvem-se os campos, vão as crianças para as escolas…
O Sol, apesar de tudo, inquietou-se:
— Vejo! Oiço! Mas vocês, vocês os quatro por aqui ao mesmo tempo! Não é costume. Não é bom nem prudente.
Os quatro irmãos olharam-se. Queriam explicar por que estavam todos ali, vindos da casa sem paredes, sem janelas. Aquela casa onde habitavam os quatro irmãos, estando um sempre na rua, correndo os caminhos livres da Terra.
Então, o irmão loiro, que parecia um rei antigo e trazia um raio de Sol na mão, resolveu falar:
— Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da terra, os quatro ao mesmo tempo, para que disséssemos, aos homens que encontrarmos, que somos amigos. Embora diferentes, somos amigos, sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria…
Foi nossa Mãe quem nos mandou…
Os outros três irmãos sorriram, sorriram os três e continuaram de mão direita estendida, estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo.
E o Sol, docemente, com um calor todo suave perguntou:
— Vossa Mãe? Como ela me lembra sempre! Ela que pensa em tudo e em todos! Está muito velha a vossa Mãe?
Foi a vez de falar o irmão vestido de folhas doiradas, que trazia um fruto maduro na mão direita, estendida:
— Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a nós os quatro. E ama tudo e todos. Como pode envelhecer quem ama assim?
E o Sol pensou alto, então:
— Como tendes razão! Como pode envelhecer quem ama assim!
E sorrindo, isto é, brilhando mais, falou para os quatro irmãos:
— Continuai o vosso caminho pelos caminhos livres da terra. Mas não esqueçais que tendes de voltar para a vossa casa que não tem parede, nem telhado, nem uma janela. O que será da terra sem que um dos quatro irmãos lhe assista!
E os quatro irmãos apressaram-se a dizer:
— Tendes razão, Sol. Nós vamos.
E disseram adeus ao Sol e começaram a caminhar. E foram em direcção ao mar.
Chegaram junto a uma praia e viram consertando as redes um velho pescador de barbas grisalhas, moreno pelos ventos do mar, pela luz do Sol.
E o pescador, pressentindo-lhes os passos na areia dourada, ficou-se pensativo com a agulha no ar e perguntou por fim:
— Quem sois?
Os quatro irmãos sorriram e outra vez o mais velho respondeu:
— Tu conheces-nos. O ano inteiro nos conheces aqui nesta praia. Três meses por ano um de nós vem visitar-te. Acompanha-nos o Sol e o Vento, o Frio e a Chuva, a Bonança e a Tempestade. Olha bem para nós!
Então o velho pescador franziu os olhos já cansados de olharem tantos anos, e sorriu. E falou devagar:
— Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós, cada irmão por sua vez. Basta-me olhar o brilho das estrelas, o correr das nuvens, o bater do mar. Sei quando chega cada um de vós, deixando os outros irmãos em casa. Mas hoje, hoje vieram todos ao mesmo tempo…
Os quatro irmãos sorriram. E falou a irmã:
— Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas o mar, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.
E os outros irmãos sorriram e continuaram com a mão direita estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo feliz.
O pescador fixou este com mais força no olhar cansado, e observou-lhe:
— Tu, às vezes, fazes revolver o Mar, mais do que os teus irmãos agitar a Terra, e nós, pescadores, somos tragados pelas ondas frias.
O irmão mais velho pareceu agora mais velho, mas sereno respondeu:
— É assim a lei da vida que me manda experimentar os homens, a sua coragem. Mas o engenho do homem é imenso, a sua coragem, sem fim.
O pescador sorriu, continuou a consertar a sua rede e pensou alto:
— As praias batidas pelo mar tornam-se mais belas. A agitação das águas é a vida de milhões de peixes que enchem as nossas redes.
E a coragem do homem é sem fim, tendes razão…
E sorria, continuava sorrindo, os olhos, a boca, todo o rosto com suas rugas sorrindo, as próprias mãos parecendo sorrir também, trabalhando muito depressa…
E os quatro Irmãos, três irmãos e uma irmã, caminharam de novo pela areia dourada aquecida pelo Sol.
E pararam junto de uma árvore onde se abrigava uma doce mulher embalando um filho pequenino que adormecia nos seus braços.
E a doce mulher cantava:
Quem tem filhinhos pequenos
Tem por força de lhes cantar
Quantas vezes uma mãe canta
Com vontade de chorar…
E a mulher, a doce mulher, suspendeu o seu canto e o seu embalo, e perguntou aos quatro irmãos:
– Quem sois vós?
E os quatro irmãos sorriram. E respondeu o que se vestia de dourado e trazia um fruto cor de ouro velho na sua mão:
— Tu conheces-nos. Sabes quando nós chegamos pelo canto dos pássaros, canto mais contente quando eles fazem o ninho na árvore que te dá sombra.
E continuou:
— Nossa Mãe mandou-nos pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas os campos e o céu embalando o teu menino, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.
Então a doce mulher sorriu, sorriu e falou:
— Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós pelo canto e pelo voo dos pássaros… Quando eles fazem os ninhos nesta árvore que me dá sombra, quando as flores nascem para me sorrirem por toda a casa, quando posso trincar um fruto como esse que tens na mão, tu irmão das folhas douradas… Mas hoje, hoje, viestes todos ao mesmo tempo… e não vos reconhecia.
E os quatro irmãos sorriram. E a irmã falou. Falou de mão estendida, com uma bela e estranha flor na sua mão:
— Foi nossa Mãe quem nos mandou…
E os quatro irmãos sorriam, os quatro com o braço direito estendido. Até o vestido de pele de carneiro parecia jovem, sorrindo feliz. Então a mulher perguntou:
— E como está a vossa Mãe, na vossa casa que não tem paredes, nem telhado, nem janelas? Muito velha, não?
Respondeu o irmão loiro que trazia um raio de Sol na mão estendida:
— Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a todos. Ama tudo e todos. Cuida de nós todos. De ti, também, e do teu menino que embalas tão docemente. Como pode envelhecer quem ama assim?
A mulher sorriu, entendendo, sorriu, e depois disse como se pensasse alto:
— Vocês vieram os quatro ao mesmo tempo pelos caminhos livres da Terra, da vossa casa sem telhado, sem porta e sem janelas, para que o Mundo seja contente, para que todas as mães cantem sem vontade de chorar…
E ficou-se a sorrir como se dissesse adeus, com uma lágrima sobre o rosto cansado.
Então os quatro irmãos resolveram voltar a casa.
Já a Lua no Céu lhes sorria como uma candeia de prata. Alumiava-lhes de mansinho, rodeada de estrelas, o caminho da casa, a casa sem telhado, sem portas e janelas, onde a Mãe os esperava com os dois braços estendidos, sorrindo, parecendo estar muito longe e muito perto.
E a Mãe, esperando-os, murmurava sorrindo com uma voz cheia de amor:
— Meus filhos!
E abraçou-os um a um, devagarinho, com muito amor, lágrimas de felicidade fugindo-lhe pelo rosto enrugado e feliz.
E os quatro Irmãos entraram sorrindo, com o Sol, a Chuva, o Vento no coração.
E contaram à Mãe, à sua velha Mãe, o que haviam visto, os quatro ao mesmo tempo, nos caminhos livres da Terra…
Deixai-os contar, um deles depressa terá que sair por três meses do Ano – terá de deixar a casa sem porta, sem janelas, sem telhados.
E se eu vos não digo os nomes destes quatro irmãos , três irmãos e uma irmã, é porque vos quero dar a alegria de os descobrirdes sozinhos, assim como quem descobre quatro segredos que têm um nome só, igual ao de sua Mãe.
Matilde Rosa Araújo
Os Quatro Irmãos
Lisboa, Livros Horizonte, 1983
Texto adaptado
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