quarta-feira, 15 de abril de 2020

História do Dia:Os dois pássaros


Dois pássaros pousavam muito felizes sobre a mesma planta. Um deles estava mais acima e o outro mais abaixo.
Passado algum tempo, o pássaro que estava mais acima disse para o outro:
— Que lindas são estas folhas verdes!
O pássaro que estava mais abaixo respondeu, irritado:
— Estás cego? Não vês que são brancas?
O de cima continuou:
— Tu é que estás cego. São verdes!
Continuou o outro:
— Aposto contigo que são brancas. Tu não percebes nada de folhas de árvores!
O pássaro de cima, irritado com esta discussão, atirou-se para cima do adversário, para lhe dar uma lição. O outro não se moveu.
Quando estavam próximos um do outro, tiveram a franqueza de olhar os dois para cima, na mesma direção, antes de começar o duelo.
O pássaro que tinha vindo de cima ficou surpreendido:
— Que estranho! Afinal são brancas!
E convidou o seu amigo:
— Vem cá acima, onde eu estava antes.
Voaram para o ramo do alto e, desta vez, disseram os dois em coro:
— Que estranho! Afinal são verdes!

Cada pessoa tem o seu ponto de vista, a sua opinião, a sua verdade. Cada qual vê as coisas segundo a sua perspetiva, que por vezes julga ser a única. É necessário que as pessoas se juntem, ponham em comum o que pensam e sentem, escutando-se umas às outras.
Pedrosa Ferreira
Educar, Contando
Porto, Edições Salesianas, 2012
http://contadoresdestorias.wordpress.com/


terça-feira, 14 de abril de 2020

Estudo em casa: Dica do Dia


História do Dia: Ele há cada nome…


Há nomes que nem inventados.
Mas são verdadeiros. Eu garanto, porque os colecciono e cato, um a um, pelas listas telefónicas do país.
A família Barriga, por exemplo, tão velha como Portugal. Já no tempo do nosso primeiro rei, o bravo D. Afonso Henriques, vivia, na província da Beira, um Martim de Barriga.
Que ninguém se admire. Se há tantos Costas, porque é que não há-de haver alguns Barrigas?
A família cresceu, espalhou-se e chegou aos nossos dias. Conheci, há tempos, uma senhora descendente do remoto beirão Martim de Barriga. Chama-se Maria das Dores; mais precisamente, Maria das Dores de Barriga, o que talvez lhe cause alguma indisposição.
E o caso do Dr. Pedro Branco, que se casou com uma senhora de apelido Feijão e tiveram um filho Feijão Branco?
Mais ou menos semelhante, e também verdadeiro, foi o caso, ou casamento, que uniu D. Maria José Coelho com o Engenheiro Manuel da Silva Guisado. O filho do casal chama-se Abel Coelho Guisado e não se importa.
 Nem tem nada com que importar-se, porque, verdade verdadinha, há nomes muito mais esquisitos.
Contou-me a minha avó que um casal já com muitos filhos foi brindado com mais uma criança, um perfeito rapazinho que havia de se chamar…
– André – disse o pai.
– João – disse a mãe.
– João Pedro – disse o avô.
– João Maria – disse o outro avô.
– João Carlos – disse uma avó.
– João Manuel – disse a outra avóNão se entenderam.
Quando, na cerimónia do baptizado, foi preciso assentar o nome do bebé no livro dos registos, ainda a família não tinha chegado a uma decisão. Até que a mãe, para safar a encrenca, ditou ao sacristão, que estava de caneta suspensa sobre o livro dos registos:
– Olhe, senhor sacristão, o nome do meu filho fica João, até ver. E Martins…
E o obediente sacristão escreveu assim o nome do rapaz:
João Até Ver e Martins
Mas ele, para o resto da vida, ficou só conhecido pelo João Até Ver.
– Pouco importa – concluía a minha avó, que esta história me contou. – O que vale é que cada um seja conhecido pelo que de bom fizer. Se for pelo que de mal fizer, então, sim, já terá razão para se envergonhar do nome.
Grandes verdades ensinava a minha avó, de nome Olívia Torrado, que, todos concordarão, não é um nome assim muito vulgar…
António Torrado

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Estudo em casa: Dica do Dia


História do Dia: Um rato a mais

Conta-se que um ratinho salvou, uma vez, um leão, que tinha caído numa armadilha. Roeu, roeu e o leão safou-se da rede em que se deixara caçar.
Muito grato ao minúsculo roedor, que mais uma vez provara que os grandes nunca devem desprezar a ajuda dos mais pequenos, o rei leão deu uma festa em honra do seu salvador.
Por altura dos discursos, o leão, diante da bicharada reunida, elogiou o ratinho e a força dos seus dentes. Sua Majestade estava comovida.
– Para provar a minha gratidão, dou-te o direito de escolher o que tu quiseres, em paga dos teus serviços.
Cabia ao rato a vez de responder. Pôs-se em bicos de pés e disse:
– Quero casar com a tua filha, para vir a ser, mais tarde, ao lado dela, o rei dos animais.
Com isto é que o leão não contava, mas não podia voltar com a palavra atrás.
A princesa leoa ficou furiosa. Ela casar com um rato?
Que ridículo!
Já a orquestra dos elefantes começava a soprar, no fim do banquete, dando início ao baile real.
– Os noivos, os noivos! Eles que dancem! – gritavam de vários lados.
Muito compenetrado do seu papel, o ratinho foi buscar a princesa. A vénia com que ele a convidou era de uma elegância sem igual.
O pior foi durante a bailação, propriamente dita. O rato podia valsar maravilhosamente, mas o par ajudava pouco...
Primeiro levou uma pisadela que quase o esborrachava.
Depois apanhou com uma patada que o atirou para o colo de um dos elefantes da orquestra.
Muito contundido, o rato teve de desistir da dança e da noiva.
Ela não se importou mesmo nada e ele, embora humilhado, suspirou de alívio, quando se viu longe daquela festa em que, pela primeira vez na vida, se sentira a mais.
                                                            
                                                                                                                                    António Torrado 


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Reflexão do Dia: A Leitura Aproxima as Pessoas



Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura. Ao entrar na pele de diferentes narradores, ao sentir-se parte de outras vidas, o leitor vai-se percebendo também parte da restante Humanidade. Tenho para mim, e atrevo-me a partilhar com vocês esta convicção — ingenuidade, dirão os cínicos —, que os grandes leitores tendem a ser menos inclinados à violência. Primeiro, porque a violência é sempre um recuo do pensamento. Depois, porque a leitura, enquanto exercício de alteridade, aproxima as pessoas.

Venho de um país que sofreu uma das mais longas e cruéis guerras civis do nosso tempo. Os fazedores de guerras civis sabem que, para triunfarem, têm de começar por desnacionalizar o inimigo. A seguir, passam a questionar a sua humanidade. Primeiro, o inimigo é um estrangeiro, depois um monstro. Um monstro, ainda para mais estrangeiro, pode ser morto. Deve ser morto.

A boa literatura trabalha em sentido contrário. Dá-nos a ver a humanidade dos outros, inclusive dos que nos são estrangeiros. Inclusive dos monstros.

José Eduardo Agualusa

Estudo em casa: Dicas para te sentires seguro

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Boa Páscoa e Boas Leituras!


História do Dia: Terá sido um sonho?

Ia um grande movimento no roseiral ao lado da casinha do jardim. Abelhas, abelhões, vespas e moscardos zumbiam e zuniam em volta dos cálices das florinhas. Mas hoje, os pequenos hóspedes dos arbustos não andavam tão ávidos à procura de comida. Estavam a conversar sobre os homens, de quem só raramente tinham alguma coisa boa para contar, porque os bichos de duas pernas andavam sempre atrás deles, procuravam matá-los com sprays, os enxotavam das flores, fatias de bolo e cestos de merendas, ou os perseguiam com caça-moscas.
— Até parece que têm medo de nós! — admirava-se um abelhão — E eu que nunca fiz mal a uma pessoa!
—Eu também não!
—E eu muito menos!
—E vocês acham que nós fizemos?
E continuaram a falar alto. Os animais estavam de acordo numa coisa: nunca nenhum deles fizera mal a um ser vivo. Porque é que os homens, que dizem saber sempre tudo, não sabiam aquilo?
— Mas ontem — observou uma vespa — passou-se uma coisa estranha comigo. Estava a comer numa silva, quando se aproximou uma criança com uma tigela. Já estava para fugir, quando reparei: a criança não me enxotou! Não. Perguntou antes delicadamente se também podia colher amoras. Claro que eu não tinha nada contra! A criança encheu a tigela e despediu-se com um alegre “Adeus!”. Digo-vos que fiquei muito admirada!
—Se calhar enganámo-nos acerca dos homens —disse a vespa, pensativa.
—Ou foram os homens que mudaram? — respondeu o besouro.
—Seria justo! —disse o moscardo. —O mundo é de todos!
—Hurra! —gritaram as abelhas, de contentes. — Os homens perceberam!
De repente, ouviram vozes humanas.
— Ui! — gritou uma voz horrorizada. — A nossa roseira está cheia de bichos! Temos de fazer qualquer coisa!
Imediatamente se aproximaram do arbusto mãos com paus e sprays de veneno.
—Ide embora, bichos —gritavam as vozes.
Os insetos puseram-se a andar.
— O dia de ontem deve ter sido um sonho, não acham? — disse mais tarde o moscardo com tristeza.
— Ontem também me aconteceu uma coisa idêntica — disse a abelha. — Foi no prado dos trevos. Eu e umas colegas voávamos de um lado para o outro à procura de néctar, quando apareceu um parzinho de namorados. Estávamos para nos ir embora, mas os jovens perguntaram delicadamente se podiam sentar-se algum tempo à nossa beira. “O prado é de todos”, respondemos, e eles sentaram-se na erva ao nosso lado e nós pudemos prosseguir com o nosso trabalho sem sermos incomodadas. Para dizer a verdade, foi divertido andar a zumbir em volta deles e mais tarde ainda nos agradeceram pelo belo concerto. O que dizem vocês a isto?
— Alguém que entenda os humanos! — resmungou um moscardo. — A nós, quase nos estripavam por medo. Mas ontem, um homem levou-me num jornal para fora de casa, onde eu andava baralhado. E ainda me disse “Passa bem!”. Esquisito, não?
—É esquisito!
E cada animalzinho tinha uma história semelhante para contar sobre o dia anterior.
Elke Bräunling
Da wird dia Angst ganz klein
Limburg, Lahn Verlag, 1998
(Tradução e adaptação)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

História do dia: A carpa



Embora fosse um camponês trabalhador, a colheita foi muito pobre naquele ano devido à ausência das chuvas, a ponto de mal ter para alimentar a mulher e os filhos. Em situação desesperada, não teve outro remédio senão recorrer a um abastado nobre para lhe suplicar:
— Senhor, fie-me alguns grãos para não morrermos à fome.
— Está bem — respondeu o poderoso. — Vou dar-te bem mais do que aquilo que me pedes: vou emprestar-te várias moedas de ouro, mas terás de esperar uns meses até que faça a coleta dos impostos, está bem?
— Quero contar-lhe uma coisa, senhor — disse o camponês. — Quando vinha para lhe suplicar ajuda, ouvi uma voz angustiada que pedia socorro. Ao acudir ao chamamento, vi que se tratava de uma carpa que se encontrava numa terrível situação. Estava caída no meio do poeirento caminho, sob um sol abrasador e dizia:
— Sou do rio e estou a morrer neste pó. Por favor, não tens um balde de água onde eu possa mergulhar?
Respondi-lhe:
— Está bem, está bem. Vou fazer mais do que isso: vou trazer-te uma bacia muito grande, mas terás de esperar até que vá para Sul e traga água do rio que lá existe, está bem?
Então a carpa, à beira da morte, disse-me:
— Fazes promessas, mas não me facultas a única coisa que pode salvar-me a vida: um balde de água. Quando trouxeres a bacia, já terei morrido.
Muitas vezes não só não somos generosos como pretendemos justificar a nossa ausência de generosidade servindo-nos de pretextos ou de falsas justificações. A avareza torna-nos insensíveis, endurece-nos o coração e faz-nos viver de costas voltadas para as necessidades alheias, esquecendo-nos de ser solidários.
O antídoto para a avareza é a generosidade, uma das qualidades mais belas do ser humano, que é preciso aprender a cultivar. É também fruto da compaixão e de uma perceção correta das coisas. A compaixão consiste em compreendermos o sofrimento alheio, mas, também, em usarmos os meios que temos ao nosso alcance para o prevenir ou minorar.
Ramiro Calle
Os melhores contos espirituais do Oriente
Esfera dos Livros, Lisboa, 2010

terça-feira, 7 de abril de 2020

História do Dia: A Felicidade está nas Pequenas Coisas


Desfruta das pequenas coisas.
Um dia podem tornar-se as maiores da tua vida.
Robert Brault



Era um daqueles dias de múltiplos afazeres e eu já estava atrasada nas tarefas de casa.
Há séculos que não ia ao supermercado e faltava quase tudo na despensa. A roupa para lavar empilhava-se, cada vez mais, no cesto, e a casa tinha ultrapassado os meus, bastante flexíveis, padrões de limpeza. Como se isto não bastasse, tinha de entregar dois artigos e precisava, por isso, de passar algum tempo diante do computador.
Os meus quatro filhos não tinham aulas naquele dia. Encantados por estar em casa, perguntavam-me, constantemente, o que iríamos fazer. Mas eu sabia que os meus planos os iam desapontar. Nenhum deles era divertido e especial.
Quando acordaram, deram-se conta de que não tinham as taças de cereais prontas, porque não havia leite. Só cereais secos… e eles não gostavam muito… Também não havia ovos ou pão, o que reduzia em muito as opções do pequeno-almoço. Bem procurei no congelador uma embalagem de waffles congeladas, mas não tive sorte. Acabei por encontrar um pacote de bolachas de manteiga. Reguei-as com açúcar e canela, pu-las no forno, e dei-as aos miúdos.
— Lamento não poder oferecer-vos algo de melhor, mas não tenho tempo para ir às compras.
Nem sequer responderam, demasiado ocupados que estavam a enfiar os rolinhos de canela improvisados na boca.
Depois do pequeno-almoço, pus uma máquina de roupa a lavar e sentei-me ao computador. A minha filha mais nova, Julia, veio ter comigo com uma cara de quem está prestes a chorar.
— Ó mãe, nós achávamos que hoje nos íamos divertir. É o nosso dia de folga!
— Sei que é o vosso dia de folga, mas não é o meu — respondi. — Tenho trabalho para fazer.
— Não podes brincar comigo aos cabeleireiros? — pediu.
Suspirei. Não tinha tempo para brincar, porque tinha trabalho urgente para fazer.
Foi então que tive uma ideia:
— E se brincássemos enquanto eu trabalho? — propus-lhe.
E foi assim que escrevi um artigo, enquanto ela me pintava as unhas dos pés.
O meu filho mais velho, Austin, ofereceu-se para fazer o almoço para eu poder continuar a trabalhar. Os mais novos ficaram encantados com as escolhas dele. Não que fossem dignas da pirâmide alimentar, mas eles gostaram e pude, assim, acabar o meu segundo artigo.
Pouco antes do almoço, fomos todos ao supermercado. O Austin empurrou o carro, enquanto os irmãos pegavam em cupões espalhados pela loja. Consegui comprar o que queria, mais alguns produtos extra selecionados pelos meus acompanhantes.
De volta a casa, os miúdos resolveram “brincar aos supermercados” com os cupões que tinham arranjado. Alinharam as latas nos balcões da cozinha e as refeições ligeiras na ilha central, e fingiram que estavam a vender o que tínhamos comprado.
Durante o resto da tarde, limpei a casa, dobrei a roupa, e comecei a fazer o jantar.
Os miúdos só interromperam o jogo com a chegada do pai.
Quando o meu marido, Eric, me viu, perguntou, com um sorriso rasgado:
— Então, que tal a folga de hoje?
Quando comecei a dizer que não tínhamos feito nada de especial, a Julia interrompeu-me:
— Pai, viste as unhas da mãe? Ela deixou-me sentar debaixo da mesa do computador e eu pintei-as enquanto ela escrevia. Foi tão divertido!
O Austin continuou:
— Hoje comemos o melhor pequeno-almoço de sempre! Já fizeste aquelas bolachas para o pai? Eram fantásticas!
O Eric olhou para mim, com um ar interrogador. Encolhi os ombros. Os meus filhos do meio, o Jordan e a Lea, revezaram-se a dizer ao pai que tinham jogado com os cupões e que o Austin tinha feito um almoço especial.
— Foi um dia ótimo, pai! Foi espetacular!
Olhei para as caras deles, cheias de entusiasmo. Entusiasmo com um pequeno-almoço a fingir, um almoço improvisado, cupões de um supermercado, e umas unhas pintadas.
— Tiveram mesmo um dia bom? Não ficaram desapontados por não termos feito algo de especial?
O Austin encolheu os ombros e disse:
— A vida é tão divertida quanto a fizermos!
Concordei com um aceno. A felicidade está mais na atitude do que nas circunstâncias. Abracei os meus filhos e agradeci-lhes por me lembrarem que devia procurar a felicidade nas pequenas coisas. A Julia sorriu e disse:
— São as pequenas coisas que nos fazem mais felizes, não são, mãe?
Os meus filhos são mesmo inteligentes…

Diane Stark


segunda-feira, 6 de abril de 2020

História do Dia: Cenoura, ovo ou café

A filha queixava-se ao pai acerca da sua vida e de como tudo lhe era tão difícil. Não sabia como fazer para seguir em frente e acreditava que acabaria por desistir, dando-se por vencida perante as dificuldades. Estava cansada de lutar. Parecia-lhe que sempre que solucionava um problema logo aparecia outro.
O seu pai, que era chef de cozinha, levou-a ao seu local de trabalho. Uma vez lá, encheu três tachos com água e colocou-os sobre lume forte. Dali a nada, a água fervia nos três tachos. Num deles, deitou cenouras, noutro ovos e, no último, grãos de café. Deixou que tudo fervesse sem dizer palavra. A filha esperou, impaciente, perguntando-se o que estaria o pai a fazer.
Dali a vinte minutos o pai desligou os discos do fogão. Retirou as cenouras e colocou-as num recipiente. Retirou os ovos e colocou-os noutro recipiente. Coou o café e deitou-o para um terceiro recipiente. Olhou para a filha e perguntou-lhe:
 — O que vês aqui?
Ela prontamente respondeu:
— Cenouras, ovos e café!
Pediu-lhe então que se aproximasse e tocasse nas cenouras. Ela assim fez, notando que estavam muito moles.
A seguir, pediu-lhe que pegasse num dos ovos e o partisse. Ela pegou no ovo e retirou-lhe a casca para encontrar no interior um ovo bastante duro.
Finalmente, pediu-lhe que provasse o café. Ela sorriu enquanto saboreava o rico aroma do café acabado de fazer.
Humildemente, a filha acabou por perguntar:
— Pai, o que significa tudo isto?
Então, ele explicou-lhe que os três ingredientes haviam sido submetidos à mesma adversidade, água a ferver, mas tinham reagido de formas distintas.
A cenoura chegou à água sendo forte e dura. No entanto, depois de passar pela água a ferver ficara débil, desfazendo-se com facilidade.
O ovo tinha chegado à água sendo frágil. A sua casca fina protegia o interior líquido. Mas, depois de estar em água a ferver, o seu interior tinha endurecido.
Em contrapartida, os grãos de café eram únicos na sua reação. Depois de entrarem na água a ferver tinham mudado a água.
— E tu qual destes ingredientes és? — perguntou-lhe o pai? — Quando a adversidade bate à tua porta como reages? És uma cenoura, um ovo ou um grão de café?
E eu pergunto-te a ti? O que fazes perante a adversidade? És como a cenoura que parece forte, mas quando é tocada pela adversidade e pela dor descobre que essa fortaleza é só aparente?
Atuas como o ovo, que começa com um coração maleável, possui um espírito fluido, mas depois de enfrentar uma morte, uma separação, um divórcio ou um despedimento se torna duro e rígido?
Ou és como o café? O café altera a água a ferver, o elemento que causa dor. Quando a água atinge o ponto de ebulição, o café alcança o seu melhor sabor.
Como manejas a adversidade? Como uma cenoura, um ovo ou um grão de café?

 Anónimo
(Tradução e adaptação)
https://contadoresdestorias.wordpress.com/2020/03/21/cenoura-ovo-ou-cafe/

sexta-feira, 3 de abril de 2020

História do Dia: O troll que não quis ficar em casa




No país dos contos de fadas, andava tudo em alvoroço. A bruxa Canhestra, desastrada por natureza, tinha-se enganado numa das suas poções mágicas e mandara a cabana pelos ares. Sobre todo o território, pairava uma névoa esverdeada e pestilenta, que provocava reacções esquisitas em quem a inalava. A começar pela própria bruxa Canhestra, que ficou transformada numa galinha saltitona e passou o resto dos seus dias a saltar à corda e a pôr ovos de borracha.
O centauro Serafim, carteiro de profissão, que ia a passar naquele momento, ganhou um apetite voraz por papel e comeu as cartas todas que tinha para distribuir. A seguir, invadiu a biblioteca e começou a devorar enciclopédias mágicas e romances de encantar. Tiveram de correr com ele à vassourada, senão não tinha restado qualquer livro nas estantes, o que seria uma tragédia.
A Ratinha Vaidosa, que vinha a chegar das compras à sua casa-cogumelo, desatou a cantar ópera em altos berros, com a sua vozinha desafinada. O que fez com que os vizinhos, ensurdecidos pela cantoria, a tivessem de amordaçar violentamente.
Por todo o lado, havia seres atingidos pela tal névoa mágica, manifestando os mais estranhos sintomas.
Depressa os habitantes do país dos contos de fadas perceberam a origem destas perturbações e protegeram a boca e o nariz com máscaras especiais, à prova de feitiços gasosos. Só que não as havia para todos...
O ministro do reino, um cavalo alado muito sábio, decretou então:
- Enquanto a névoa mágica resultante do acidente da Canhestra não se dissipar, toda a gente deve ficar em casa. Fechem portas e janelas e evitem meter o nariz de fora. Já temos uma equipa de fadas, bruxas e feiticeiros a estudar o assunto e a desenvolver uma poção de desencantamento. Até que o problema se resolva, e não sabemos quando, ninguém sai, ouviram?
Os anões, as fadas, as ninfas, os faunos e os restantes seres que habitam o país dos contos de fadas, todos acataram as ordens  do ministro do reino. Todos, menos um, o troll Arrebentaportas, que era sempre do contra.
- Vou agora ficar em casa...  Tenho mais que fazer. Vou inventar uma máscara à minha maneira e saio quando me apetecer. Tanto mais que, aqui por estes lados, já quase se não vê qualquer névoa.
E se assim o pensou, melhor o fez. Enrolou à volta da boca e do nariz um trapo ensopado numa mistela que usava para desentupir a sanita e saiu. Só que não chegou muito longe. A pouco e pouco, os restos de névoa pestilenta que por ali pairavam atravessaram o tecido da máscara improvisada e o resultado não foi bonito de se ver. O troll Arrebentaportas foi transformado numa batata podre com soluços. E o problema maior é que, sempre que soluça, metamorfoseia-se numa coisa diferente: uma panela de pressão, um chinelo roto, um penico, um ovo escalfado e uma quantidade de outras coisas inesperadas. É bem feito para ele!
E vocês, não esqueçam, enquanto o problema persistir, NÃO SAIAM DE CASA!
Carlos Alberto Silva

quinta-feira, 2 de abril de 2020

História do Dia: Fome de palavras


Na minha terra, os arbustos florescem em finais de abril, início de maio, e logo se enchem de casulos de borboletas. Parecem bolas de algodão ou pedacinhos de algodão doce, mas as crisálidas que ali de desenvolvem devoram folha após folha, até os arbustos ficarem despidos. Quando as borboletas saem destes casulos, iniciam os seus voos delicados, mas os arbustos não são destruídos. E quando chega o Verão, florescem novamente, e assim acontece ano após ano. 
É isto que sucede ao escritor e ao poeta. São devorados, esvaziados pelas suas histórias ou poemas: quando estes já estão escritos, saem a voar para acabar nos livros e poderem encontrar os seus ouvintes ou leitores. E isto repete-se uma vez, e outra vez. 
O que acontece aos poemas e às histórias? Conheço um menino que foi operado aos olhos. Depois da cirurgia, teve de ficar duas semanas deitado sobre o lado direito. Durante um mês, não pode ler, não pode ler mesmo nada. Quando ao fim de um mês e meio pegou finalmente num livro, parecia que o livro era uma tigela onde apanhava palavras à colher. Como se as comesse. Como se verdadeiramente as comesse. 
Conheço uma rapariga que cresceu e é agora professora. Disse-me: coitadas das crianças a quem os pais não leem livros. 
As palavras nos poemas e nos contos são comida. Não são comida para o corpo: ninguém pode encher o estômago com elas. São comida para o espírito e para a alma. 
Quando temos fome e sede, o estômago encolhe-se e a boca seca. Procuramos um pedaço de pão, um prato de arroz, de milho, um peixe ou
uma banana. Quanto mais fome se tem, mais a atenção diminui, e já não se vê mais nada para lá do pedaço de comida que nos saciaria. 
A fome de palavras não se manifesta deste modo, mas adquire a forma da melancolia, do esquecimento, da arrogância. As pessoas que sofrem este tipo de fome não percebem que as suas almas tremem de frio e lhes passam ao lado. Uma parte do mundo foge-lhes das mãos sem que disso tenham consciência. 
Esta fome pode ser saciada com contos e poemas. 
Mas haverá esperança para aqueles que nunca se alimentaram de palavras para satisfazer a fome? 
Sim, há. O menino lê quase todos os dias. A menina que já cresceu e se tornou professora lê histórias aos seus alunos. Todas as sextas. Todas as semanas. Se um dia se esquecer, os alunos vão lembrá-la. 
E quanto ao escritor e ao poeta? Quando chegar o Verão, ficarão novamente verdes. E mais uma vez serão comidos pelas histórias e pelos poemas que escrevem, que voarão em todas as direções, como borboletas. Uma vez, e ainda outra vez.
Peter Svetina (n. 1970, Ljubljana, Eslovénia)
Tradução: Maria Carlos Loureir

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Passatempo: 10 minutos a Ler


Fotografa-te a ler. Fotografa alguém da tua família a ler. EM CASA, claro. Sem mostrar rostos nem marcas.
Publica a foto na tua galeria do Instagram, devendo o perfil da conta ser público.
Identifica o teu post com os hashtags  #10minutosaler #PNL2027 @pnl2027



Passatempo do Instagram #10minutosaler
– de 30 de março ao final do ano letivo
Regulamento
1. Como participar
1.1. Tirar uma fotografia do (a) próprio (a) ou de alguém a ler em casa, sem mostrar rostos ou marcas.
1.2. Publicar a foto na sua galeria do Instagram, devendo o perfil da conta ser público.
1.3. Identificá-la com os hashtags #10minutosaler e #pnl2027.
1.4. Cada participante pode candidatar-se com mais do que uma fotografia.
2. Os participantes garantem que as fotos submetidas são da sua autoria, inéditas, não pertencendo nem violando direitos de terceiros, designadamente de imagem e de propriedade intelectual.

3. Ao longo do período do passatempo, o PNL2027 irá partilhar no seu Instagram as fotos publicadas. A fotografia com mais “Gostos”, em cada dia, será apurada para uma finalíssima, a ocorrer no dia 30 de junho.

4. Neste dia, identificar-se-á, de entre as 5 fotografias finalistas, a que tem mais “Gostos” e que será premiada.

5. O(a) autor(a) da fotografia vencedora deverá enviar para pnl@pnl2027.gov.pt  os seus contactos para envio do prémio.

6. O prémio a atribuir é constituído por livros e acessórios tecnológicos.

7. Estarão automaticamente desclassificados os participantes que partilhem fotografias que tenham carácter ofensivo, discriminatório ou inadequado.
Boa sorte!


Mais informações em http://www.pnl2027.gov.pt/np4/home



História do Dia: Tita, Gosto de Ti



Era uma vez uma ratinha chamada Tita que estava sempre a fazer perguntas.
Felizmente, tinha uma Avozinha que estava sempre a dar respostas e por isso entendiam-se lindamente.
– Avozinha – perguntou Tita um dia – o que é o amor?
– O amor? – riu-se a Avozinha. – Oh, isso é fácil, Tita! Vem dar um passeio comigo e vais perceber logo o que é!
A Avozinha e a Tita foram pela horta fora onde o Avô estava a tratar da terra.
– Chiu! – murmurou o Avô, e apontou em direcção a uma mãe-
-carriça que estava a ensinar os filhotes a voar.
– Tal  como  tu  e  a Avozinha  me  ensinam a fazer coisas! – sussurrou Tita.
Depois do portão da horta, começava o bosque. Pouco depois de lá chegar, a Tita viu uma mãe-esquilo a partilhar com os seus filhotes algumas das bolotas que tinha escondido num buraco durante o Outono.
– Tal como a Avozinha partilha os seus cozinhados comigo! – exclamou Tita.
Depois de terem passado pelo bosque, chegaram ao prado. A Tita gostava de lá ir, porque podia ver os coelhos fora das tocas, todos atarefados, de um lado para o outro. Mas, hoje, havia um coelhinho que tinha magoado a patinha numa pedra afiada e a mãe-coelho estava deitada à beira dele, a fazer-lhe companhia até ele melhorar.
– Tal como te sentas à cabeceira da minha cama, se eu estiver doente – disse Tita.
Havia um campo perto do prado e Tita viu um cordeirinho que andava a correr de um lado para o outro, cheio de medo de um cão-pastor. Mas, nesse momento, uma mãe-ovelha saiu do rebanho muito apressada e aproximou-se do cordeirinho, que, quando se pôs encostadinho a ela, ficou muito mais sossegado.
– Vês – sorriu a Avozinha – aquela mãe ovelha estava a dizer ao cordeirinho para não ter medo do cão-pastor. Ele está lá para tomar conta deles.
– Tal como tu me dizes para não ter medo, quando estou assustada – disse Tita.
Depois de atravessarem o campo, a Avozinha e a Tita chegaram ao lago  dos patos, onde uma ninhada de patinhos fazia “quá, quá” e  “ploc, ploc”, numa correria atrás da mãe.

– Aqueles patinhos, um dia, vão crescer, não vão? – perguntou Tita. – Achas que a mamã deles os vai esquecer, quando tiver de tomar conta de outros filhotes?
– Não! – disse a Avozinha. – Ela nunca esquecerá nenhum deles.
– Tal como tu nunca me esquecerás! – disse Tita.
Agora, já estava a ficar escuro e, quando Tita e a Avozinha deram meia-volta para regressar a casa, passaram por um celeiro. Ouviram alguém a piar lá dentro e a Tita foi à porta, dar uma espreitadela. Então, ela viu a mãe coruja a dar muitos beijinhos repenicados aos seus pequenotes, antes de sair, durante a noite.
– Tal como tu me dás um beijinho de boa noite – disse baixinho Tita.
– Sim – concordou a Avozinha. – Embora para as corujas seja um beijo de bom-dia!
E as duas desataram a rir.
Como estava noite, Tita e a Avozinha apressaram-se a chegar a casa e viram o Avô a acenar ao pé do portão.
– Avozinha! – disse Tita. – As coisas todas que vi hoje, se as pusermos todas juntas, ficamos com amor?
– Sabes que mais – disse a Avozinha – acho que tens toda a razão.
Naquela noite, Tita esteve à janela com a Avozinha, a pensar em tudo o que tinha visto.
– Foi um dia muito agradável – disse Tita baixinho. – Gosto muito de ti, Avozinha, e do Avô também.
– E eu gosto muito de ti, Tita – disse a Avozinha.
E assim, Tita deu um beijo de boa-noite à Avozinha e foi pé ante pé para a caminha.

terça-feira, 31 de março de 2020

História do Dia: Pauzinhos de marfim




Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com ele e explicou-lhe:
— Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de pauzinhos pode levar-te à perdição!
O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:
— Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.
Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos. Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção. 
O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.
 Conto do filósofo chinês Han Fei,
oito séculos antes da nossa era.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Reflexão do Dia: A Primavera está a chegar...



É verdade que há medo. É verdade que há isolamento. É verdade que há açambarcamento. É verdade que há doença. É verdade que há mesmo morte.
Mas há quem diga que, em Wuhan, depois de tantos anos de ruído, é possível, de novo, ouvir os pássaros.
Há quem diga que, após algumas semanas de silêncio, o céu já não está tão poluído e voltou a ser azul e nítido.
Há quem diga que, nas ruas de Assis, as pessoas cantam umas para as outras através das praças desertas e mantêm as janelas abertas, para que os que estão sozinhos possam ouvir sons de vida em família.
Há quem diga que um hotel do oeste da Irlanda está a confecionar e entregar refeição gratuitas às pessoas que não podem sair de casa.
Hoje mesmo, uma jovem minha conhecida está a distribuir panfletos com o seu número de telefone pela vizinhança, para que os idosos possam ter com quem falar.
Hoje mesmo, igrejas, sinagogas, mesquitas e templos preparam-se para acolher os sem-abrigo, os doentes e os exaustos.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a parar e a refletir.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a ver os vizinhos de forma diferente.
Um pouco por todo o mundo, as pessoas estão a acordar para uma nova realidade.
Para o facto de sermos todos tão relevantes.
Para o facto de termos todos tão pouco controlo.
Para aquilo que realmente importa.
Para o Amor.
E, por isso, rezamos e lembramos que, apesar de haver medo, não tem de haver ódio.
Que, apesar de haver isolamento, não tem de haver solidão.
Que, apesar de haver açambarcamento, não tem de haver mesquinhez.
Que, apesar de haver doença, não tem de haver almas doentes.
Que, apesar de haver morte, o amor pode sempre renascer.
Acordemos para as escolhas que fazemos em relação à vida que levamos hoje.
Ouçamos, por detrás dos ruídos incessantes do nosso pânico, o canto dos pássaros.
O céu está a clarear, a primavera está a chegar, e o Amor continua a abraçar-nos a todos.
Abramos as janelas da nossa alma e, mesmo que não possamos tocar-nos, cantemos uns para os outros.

sábado, 28 de março de 2020

História do dia: Obrigada por não me empurrares




As minhas pernas andavam para a frente e para trás. Embora estivesse a usar toda a força que tinha para que o meu baloiço chegasse ao céu, estava muito longe de o conseguir.
— Mãe, podes empurrar-me outra vez?
— Não, filha. Eu sei que consegues chegar mais alto. Concentra-te e continua a usar as tuas pernas.
Olhei em volta e vi todas as outras mães e pais do parque a empurrar os filhos, sob o calor escaldante de junho. Perguntei-me por que razão a minha mãe não fazia o mesmo. Não que lho fosse perguntar. Temia bem aquele olhar que os pais lançam aos filhos, quando acham que a sua autoridade está a ser questionada.
— Está bem — resmunguei.
Embora eu não acreditasse na força das minhas pernas, a minha mãe parecia ter muita confiança nelas. Coloquei as mãos em volta das correntes de metal, pus-me em posição, balancei para trás e lá continuei.
— Continua a balançar as pernas, filha! Tu consegues! — encorajou-me ela.
Parecia querer o meu sucesso mais do que eu mesma. Como não queria desapontá-‑la, lá me esforcei. Acabei por chegar tão perto do céu que os meus pés já tocavam as nuvens. Sorri abertamente ao ver que tinha conseguido o impossível. Tinha conseguido voar.
Saltei do baloiço e enterrei os pés na areia quente.
— Viste o que eu fiz, mãe? Viste?
— Claro que vi. Estive sempre a olhar para ti.
Naquela altura, não compreendia por que motivo a minha mãe queria que eu fizesse tudo sozinha. Se eu não conseguia balançar mais alto, porque não me empurrava ela?
Ao longo dos anos, a minha mãe deu-me o maior presente que um pai ou mãe podem dar aos filhos: um amor exigente, liberdade e independência. Ensinou-me a enfrentar os desafios sozinha. Preparou-me para o meu futuro. E mostrou sempre muita empatia e amor por mim, ao mesmo que tempo que fazia de minha professora e melhor amiga, e ainda de pai e de mãe.
De cada vez que ouvia as palavras “Não consigo”, sorria, porque sabia que eu conseguia. Se ela tivesse empurrado o meu baloiço, eu nunca teria saltado dele sentindo-‑me tão maravilhosamente capaz.
Christy Barge

quinta-feira, 26 de março de 2020

História do Dia: Uma questão de lápis




O telefone tocou. Era a minha irmã a dizer:
— Pensei que gostarias de saber que voltei a contar a tua história dos lápis.
A minha irmã é diretora da biblioteca audiovisual de uma escola básica. De vez em quando, conta aos alunos que visitam a biblioteca um episódio que se passou comigo em criança.
Há cerca de 40 anos, estava eu sentada na minha sala de aula quando alguém, através do altifalante da sala, me chamou ao gabinete do diretor. O gabinete do DIRETOR! Enquanto me dirigia para lá, a minha curta vida de seis anos desenrolou-se qual filme diante dos meus olhos. O que teria eu feito?
Era uma criança tímida e evitava dar nas vistas. Não gostava nada que reparassem em mim ou que me destacassem do grupo. Para mim, ser chamada ao gabinete do diretor era o meu pior pesadelo tornado realidade. Quando lá cheguei, a secretária dele disse:
— Diane, o diretor ainda não pode receber-te. Senta-te uns minutos, por favor.
Sentei-me num sofá de couro e afundei-me o mais que pude. Até rezei para que as almofadas me engolissem.
Pouco depois, o intercomunicador emitiu um ruído e a secretária sorriu:
— Podes entrar agora.
Empurrei a pesada porta de carvalho. A situação ainda era pior do que eu imaginava porque os meus pais estavam sentados diante da secretária do diretor. Só anos mais tarde é que soube porque tinham sido chamados.
O meu pai dirigiu-se a mim com uma resma de desenhos meus.
— Por que razão usas apenas lápis preto para desenhar? — perguntou.
Fiquei sem palavras e encolhi os ombros.
— Mostra-me a tua secretária — pediu o meu pai.
Regressámos à sala de aula. Como era intervalo, todos os meus colegas estavam no recreio. Apontei, nervosa, para a minha secretária. O meu pai pegou na minha caixa de lápis e esvaziou o conteúdo na mão. Só lá havia um cotinho de lápis preto. Admirado, o meu pai perguntou:
— Onde está o resto dos teus lápis?
Expliquei-lhe que os tinha passado aos meus colegas. Emprestado, tal como os meus pais me haviam ensinado.
O meu pai suspirou de alívio:
— Emprestaste-os.
Assenti com a cabeça. Olhei para o meu pai e para o diretor. Ambos tinham a cara vermelha. O diretor murmurou qualquer coisa sobre eu ir para o recreio brincar. Acenei aos meus pais e lá fui. A minha mãe retribuiu o meu gesto, mas o meu pai estava demasiado concentrado a olhar para o diretor. Anos mais tarde soube que a vermelhidão do rosto do meu pai se devia à irritação  e que a vermelhidão do rosto do diretor se devia ao embaraço. Tendo visto os meus desenhos todos pintados a preto, o diretor assumira que eu tinha problemas emocionais graves. A minha escolha de cor dever-se-ia a uma “natureza sombria e deprimida.” Assim, chamara os meus pais para discutir o meu “problema” e sugerir-lhes que eu tivesse algum tipo de acompanhamento psicológico.
Eu tivera demasiado medo para admitir que só tinha um lápis e era demasiado tímida para pedir os outros de volta. As outras pessoas assumiram o pior, porque eu não tinha feito valer os meus direitos.
Nessa mesma noite, o meu pai falou comigo acerca da diferença entre emprestar e dar. Ofereceu-me uma caixa nova de lápis e disse:
— Estes lápis são teus. Não quero que os dês, compreendes?
Agarrei bem a caixa e respondi:
— Sim, papá.
A minha irmã ainda usa esta história para alertar os alunos para não terem medo de fazer perguntas, para não terem medo de verbalizar o que pensam e sentem. Caso contrário, as pessoas podem tirar as conclusões erradas e ocorrer-lhes o que ocorreu com a irmã dela quando tinha a idade deles. E tudo por causa de um lápis de cor preta…
Diane M. Miller
(Tradução e adaptação)

quarta-feira, 25 de março de 2020

História do Dia: O monstro minúsculo que queria ser rei



Num lugar muito longe daqui, havia um monstro minúsculo, tão pequeno, tão pequeno que ninguém conseguia vê-lo à vista desarmada. No entanto, tinha muito mau feitio e uma enorme ambição: tornar-se num gigante e ser rei absoluto. Como tinha nascido com uma coroa na cabeça, achava que tinha direito a dominar todo o planeta.
Um dia, foi consultar uma bruxa malvada muito poderosa e disse-lhe:
- Ouve lá, ó bruxa maléfica, estou decidido a tornar-me num gigante e a ser o rei absoluto deste planeta. Se me ajudares a consegui-lo, recompensar-te-ei e nomear-te-ei minha Primeira Conselheira.
A princípio, a bruxa achou que aquele monstro minúsculo não devia estar bom da cabeça. Ainda por cima, manifestava uma irritante falta de respeito. Chegou mesmo a pensar lançar-lhe um feitiço que o transformaria num sapo ou, como era tão pequeno, num grão de pó. Mas depois reconsiderou, pensando que aquilo até podia ser divertido e respondeu:
- Combinado! Se fizeres tudo o que eu disser, ajudo-te a conseguir o que pretendes.
Virou costas e foi para junto do seu caldeirão, criar um feitiço especial.
Passado algum tempo, a bruxa chamou o monstro minúsculo e disse-lhe:
- Já preparei um feitiço que te permitirá realizar o teu desejo. Mas, para isso, há algumas condições.
- Ai sim? - disse o monstro minúsculo - Que condições são essas?
- Primeiro, tens de prometer que farás tudo o que eu disser, como eu disser e quando eu disser.
- Está bem, prometo! - resmungou o monstro minúsculo, com maus modos.
A bruxa explicou então:
- Para poderes ser o rei do mundo, tens de subjugar os humanos, que são quem, neste momento, domina o planeta. Vais entrar dentro deles e submetê-los à tua vontade. No entanto, tens um tempo limitado para habitar o corpo de cada um, antes que te consigam expulsar.
- De acordo - disse o monstro minúsculo. - E que mais?
- Só podes ir de humano em humano quando eles estiverem em contacto entre si. Aproveita bem cada aperto de mão, cada abraço e cada beijo para passar para o próximo ou então acaba-se o tempo e não poderás realizar o teu desejo.
- Certo. E que mais?
- Quando estiveres dentro de cada um, faz o que puderes para dominar o corpo que invadiste. Obriga-os a tossir para tornar mais fácil e rápida a tua acção. E olha que não vai ser fácil, sobretudo com os mais jovens. Por isso, aproveita especialmente os mais velhos, em particular os que já estiverem doentes.
- Percebi. Não me parece nada difícil. Vai ser canja, hehehehe! Já me estou a ver: enorme, do tamanho do mundo, com o planeta todo às minhas ordens.
- Não te entusiasmes demasiado - disse a bruxa. - Ainda temos muito que fazer. Agora, salta para dentro do meu nariz e vamos ao trabalho!
O monstro minúsculo saltou para dentro do nariz da bruxa e começou a multiplicar-se. Esta disfarçou-se de velhinha simpática e foi até ao mercado, que àquela hora estava a abarrotar de gente. Na mão, levava uma cesta cheia de maçãs, vermelhinhas e sumarentas, para cima das quais havia tossido.
- Olh'ás maçãs vermelhinhas e sumarentas!!! - apregoava ela. - Quem quer comprar as minhas maçãs maduras e deliciosas?
Ao mesmo tempo, ia cirandando entre as bancas do mercado e tossindo para cima das pessoas e das mercadorias e tocando em tudo com as mãos sujas.
Constatando que poucos queriam comprar as maçãs, começou a oferecê-las:
- Olh'ás maçãs vermelhinhas e sumarentas!!! Ó freguês, pague uma e leve três!
A pouco e pouco, o monstro minúsculo começou a entrar pelos narizes e bocas das pessoas que por ali andavam, sem que estas dessem por isso. Quando encontravam algum amigo ou conhecido, as pessoas cumprimentavam-se efusivamente, ajudando assim a passar o monstro minúsculo que as contaminava.
Dias depois, começaram a surgir os primeiros sintomas da invasão: algumas pessoas sentiram-se muito cansadas, com febre e com tosse. As mais vulneráveis tiveram que ser hospitalizadas e, a cada dia que passava, apareciam mais casos. Algumas pessoas não resistiam...
Na sua cabana, a bruxa malvada gargalhava, a cada má notícia que ouvia sobre o assunto. Por seu lado, o monstro minúsculo andava nas suas sete quintas e crescia de dia para dia. Começou por ter sob o seu domínio uma cidade e depois outra e outra.
Quando já controlava o país inteiro, espalhou-se pelos restantes países. Os estrangeiros que estavam de visita levavam-no na bagagem para as suas terras e ajudavam, sem saber, à sua propagação.
O monstro minúsculo começou então a lançar na cabeça das pessoas a semente do medo. Não tardou que o pânico alastrasse e estas começaram a acumular comida e outros bens essenciais. Alguns até compraram armas. Mas esta era uma guerra invisível, porque ninguém sabia como combater o monstro minúsculo.
Os governantes dos países atingidos chamaram os feiticeiros oficiais, mas estes não sabiam como resolver o assunto. Chamaram então os cientistas e pediram-lhes ajuda. Os cientistas estudaram o problema e procuraram uma cura para a doença provocada pelo monstro minúsculo.
Descobriram que este só podia crescer quando as pessoas estavam em contacto entre si. Que se aproveitava de cada aperto de mão, cada abraço e cada beijo para passar de uma para outra. Aconselharam então as pessoas a mudarem os seus hábitos e a ter muito cuidado com a higiene. Aconselharam também que, os que pudessem, ficassem em casa. Só saíam os que tinham mesmo de trabalhar para dar resposta às necessidades do dia a dia.
Muitas pessoas assim o fizeram. Custava muito ficar em casa em vez de ir trabalhar, passear ou tratar dos assuntos habituais. Mas arranjaram maneiras de comunicar e de se apoiarem umas às outras. Vinham para as janelas e para as varandas cantar em conjunto, liam em voz alta, contavam histórias... E diziam umas às outras:
- Vamos ficar bem! Vamos ficar bem!
Assim, o tempo de que o monstro minúsculo dispunha para concretizar o seu plano maléfico ia-se esgotando. A pouco e pouco, voltava a ficar cada vez mais pequeno, o que o deixava tremendamente furioso.
A bruxa malvada acabou também por ser vítima do monstro minúsculo. Ele achava que a culpa do seu falhanço era dela, zangou -se e, como acontece neste tipo de histórias, empurrou-a para dentro do forno e a bruxa rebentou!
O monstro minúsculo ainda anda por aí, mas acredito que as pessoas, que somos todos nós, o iremos vencer. E, no final, vamos ficar bem!
                                                                                             Carlos Alberto Silva